Trabalhos realizados pelos alunos de 10ºano - Ano letivo 2017/2018
"OLHAR BRAGA" - PROJETO DE ESCRITA CRIATIVA
Museu dos Biscainhos
A Filha Rebelde
Estava uma noite fria e a chuva atacava incansavelmente o Palácio dos Biscainhos. A filha dos condes de Bertiandos, donos do palácio, estava no seu quarto, aborrecida e sem nada com que se distrair. Como muitos jovens da sua idade, questionava-se se algum dia poderia libertar-se da autoridade dos seus pais e ser livre. Mas o seu pensamento foi interrompido quando um aio veio ao seu quarto e disse:
- Menina, seus pais requisitaram a sua presença na sala de jantar.
Mal o aio acabou a sua frase, Matilde de Bertiandos dirigiu-se rapidamente à sala de jantar. Quando entrou, todos olharam para ela e, com um ar muito sério, o pai informou-a, usando um tom de voz muito natural:
- Os meus parabéns, filha, recebeu uma proposta de casamento.
A filha ficou indignada e fazia os possíveis por esconder a sua revolta antes de responder ao pai, quando ele a interrompeu, dizendo:
- Eu sei, eu sei, são muitas perguntas que quer fazer, mas neste momento terá de esperar...O seu noivo pediu-me para não ser revelada a sua identidade senão quando regressar da viagem que está fazer, mas pediu-me para lhe entregar isto ...
E foi aí que ela leu a carta mais bonita que lera em toda a sua vida.
Minha amada donzela,
Sem a querer aborrecer,
Quero defini-la como a mulher mais bela,
Que faz o meu coração estremecer.
Quero muito passear consigo,
Se preferir, até ao amanhecer,
Contemplaremos as constelações
E deixaremos falar nossos corações.
Eternamente, consigo quero viver;
E, para todos os dias sermos felizes,
Só da vossa vontade vai depender,
Os nossos corações, peço que harmonize.
Gustavo
Depois de ler este belo poema, Matilde de Bertiandos ficou muito sensibilizada com as palavras do seu "noivo" e achou que, afinal, ele poderia ser o homem perfeito para casar. Os dias foram passando e a jovem estava cada vez com mais expectativas acerca do seu casamento e do seu pretendente. Certo dia ...
Matilde estava a escovar o seu cavalo preferido nas cavalariças do palácio quando lhe apareceu um jovem do povo a pedir emprego no Palácio, pois os seus pais não tinham rendimentos suficientes para sustentar a família numerosa. Mal ela olhou para o jovem, os seus olhos reluziram, evidenciando o quanto lhe agradara a figura daquele rapaz.
- Acho que meu pai precisa de mais um jardineiro para cuidar deste belo e grande jardim.
Era a resposta que o jovem procurava; respondeu à filha dos condes do palácio, fazendo uma vénia e dizendo-lhe:
- Mil obrigados, nobre senhora.
Dirigiram-se os dois para a sala onde se encontrava o Conde de Bertiandos que olhou fixamente o jovem e perguntou à filha:
- Filha, que sujeito é este?
- Este jovem necessita de um emprego como jardineiro, pois a sua família está a passar por dificuldades financeiras.
-Entendo, filha, fizestes bem em trazer esse rapaz, começa a trabalhar cá a partir de amanhã...
No entanto, o conde não pareceu gostar da cara do pobre rapaz...Dia após dia, a jovem parecia cada vez mais próxima do jardineiro.
Os dias foram-se passando e chegou o esperado dia em que o pretendente de Matilde iria jantar ao palácio e, finalmente, iriam conhecer-se. Estavam todos ansiosos e vestidos a rigor para o evento especial. Matilde de Bertiandos estava a usar o seu vestido feito com os tecidos mais caros da época e desenhado pelos melhores estilistas de todo o país. Era um vestido de um branco resplandecente, parecendo brilhar como um diamante, enquanto a jovem se passeava pelo jardimque exibia imensos tons de verde, flores odoríferas e tinha sido decorado para a ocasião de forma festiva. Eram já oito horas da noite e estavam todos à espera do misterioso pretendente da filha do conde.
Mal o pretendente entrou na sala, a jovem olhou para ele de uma forma um tanto ou quanto sedutora. Gustavo apareceu elegantíssimo, com roupa formal, como seria de esperar. O Conde ficou agradado e pareceu-lhe que o rapaz era simpático e pacífico.
- Boa noite - disse Gustavo, aparentando estar um pouco nervoso. Todos lhe responderam à saudação e o Conde pediu-lhe que ocupasse o lugar junto da sua filha. Num passo muito solene e elegante, o jovem dirigiu-se para perto de Matilde e, com voz ligeiramente nervosa, perguntou-lhe:
-"Gostou da carta que lhe enviei?"
-De facto, agradou-me bastante, achei-a muito interessante - afirmou Matilde, esboçando um sorriso dócil.
O jovem pretendente aproximou-se dela e começou a dizer:
- Estive muito tempo à espera deste dia, até que enfim que se concretiza!
- Eu também! Eu acho que o Gustavo é um rapaz muito simpático e sinto-me bastante lisonjeada com a sua carta - acrescentou Matilde, sorrindo levemente.
- Não é uma questão de ser simpático, mas sim realista! - afirmou ele, com firmeza, procurando dar um toque de especial sinceridade à expressão.
Matilde ainda tentou retorquir mas não conseguiu devido ao nervosismo; limitou-se a sorrir, olhando-o carinhosamente.
Estava tudo a correr tal como o esperado e Gustavo estava a ganhar cada vez mais a simpatia da sua futura mulher. A certa altura, apareceu o jovem jardineiro que fez questão de perguntar apenas a Matilde:
-Está tudo a correr bem, minha senhora? O jantar está ao vosso agrado?
-Sim, está tudo a correr bem - respondeu Matilde, embaraçada com aquela atitude do jardineiro. Gustavo, estranhando aquela intimidade entre os dois, perguntou à sua futura mulher:
- Quem é este homem?
- É um dos nossos jardineiros e também é um grande amigo meu.
Gustavo não gostou do que vira nem da resposta de Matilde e não foi o único; o Conde de Bertiandos estava cada vez mais convencido de que a sua filha tinha um caso com o jardineiro. Durante o jantar, ficou decidido que o casamento seria daí a um mês e a família de Bertiandos iria preparar uma grande festa. Gustavo só voltaria na véspera do casamento pois tinha negócios de família a tratar.
Durante esse mês, sem que a família se apercebesse, a relação entre a filha dos condes e o jardineiro ficou cada vez mais íntima.
Certo dia, Matilde estava escondida nas cavalariças a conversar com o jardineiro e o pai descobriu-os. O Conde ficou chocadíssimo com o sucedido e decidiu adiar o casamento até que a situação acalmasse e se esclarecesse.
Mas, como a filha dos Condes de Bertiandos morria de amor pelo jardineiro, decidiram fugir para Espanha numa carroça que tiraram das cavalariças. O conde, quando soube do sucedido, ainda tentou perseguir a filha só que esta já tinha passado a fronteira.
Autores: Carlos Pereira; Fábio Vieira; Luís Santos e Rui Patrina
O Amor Proibido de Constança
Quero contar-vos a história da minha vida. Chamo-me Constança e, na altura dos factos, tinha cerca de 20 anos e vivia com os meus pais, os condes Afonso e Beatriz de Bertiandos, num palácio conhecido em Braga, o palácio era enorme, talvez o maior palácio de Braga, com grande número de divisões: átrio, escadaria azulejada, sala de entrada, salão nobre, capela, salão de música e de jogos, sala de jantar, claustro, cozinha, cavalariças, entre outras, sendo rematado por um grande jardim externo.
Numa tarde de Primavera, dia 21 de abril, estava a preparar-me para um jantar que iria ser muito importante para o meu futuro, mas mais para a frente saberão do que se tratará...
- Dilda! Podes chegar aqui por favor?
Dilda era a minha dama de companhia, ela ajudava-me em tudo, a vestir, a pentear, fazia até o papel de conselheira, era uma segunda mãe para mim.
-Sim, querida, de que precisas?
-Ajudas-me a escolher o vestido ideal para logo?
Enquanto escolhíamos o vestido, idealizávamos como seria o duque.
Duque?! Perguntam vocês; sim ia jantar com o escolhido pelos meus pais para se casar comigo e não conseguia parar de imaginar como ele seria.
-Como achas que ele será, Dilda? Imagino um rapaz, lindo, educado, gentil ... achas que ele terá olhos azuis? Castanhos? Será loiro, ou um moreno charmoso?
-E se ele for totalmente o contrário do que estás a imaginar? Feio, arrogante, sem classe e desinteressante...
Escolhida a roupa, segui para o Salão de Música e de Jogos para a minha aula de piano. Depois da aula fui ler um livro para o jardim. O jardim do palácio era o meu espaço favorito: flores variadas e coloridas em todas as épocas do ano, algumas árvores exóticas, e até uma casa na árvore que eu frequentava para dedicar à leitura. Todas as manhãs, passeava no jardim para respirar o ar puro cheio de aromas que a natureza envolvente me oferecia. Ali, sentia um grande conforto interior.
Nesse dia, a leitura foi interrompida por Zacarias que se dirigia às cavalariças com os nossos cavalos (o meu pai gostava muito de cavalos).
-Menina já viu as horas? Já deveria estar nos seus aposentos.
Percebi que já estava a anoitecer e apressei-me. Dilda já deveria estar à minha espera.
-Despacha-te, Constança, já estás atrasada!
Apressadamente coloquei o vestido e os sapatos enquanto Dilda me fazia um lindo penteado.
Ouvi a carruagem a chegar e desci, para receber o duque juntamente com os meus pais.
A minha mãe, a condessa Beatriz, era uma mulher linda, com um forte cabelo ruivo ondulado e olhos verdes; o meu pai, elegante também, tinha um olhar intenso, cor mel, e um cabelo liso escuro. Mal abriram o portão, senti um nervosinho, pois estava curiosíssima para ver como seria o duque.
Entrou, apresentou-se e fixou o seu olhar em mim. Fisicamente era alto, tinha os olhos verdes como esmeraldas e o cabelo era castanho claro; chamava-se Filipe e eu adorava aquele nome.
Já na sala de lazer, como um cavalheiro devia ser, gentilmente, ofereceu-me a cadeira para eu me sentar. Agradeci-lhe, com um leve gesto de cabeça.
Seguidamente, o duque sentou-se também com uma postura formal. Estivemos a falar, mas ... a sua conversa não me despertou interesse. Comecei a perceber que tínhamos personalidades distintas, ele só falava de si mesmo e adorava engrandecer os seus bens e o império do pai.
-Ao longo do tempo, o meu pai foi construindo uma vasta fortuna devido aos negócios que estabeleceu na Índia e nos novos mundos.
-Já vi que a minha filha e os meus futuros netos estão bem entregues ... - sussurrou o meu pai ao ouvido da minha mãe.
Depois de um curto diálogo, pedimos licença para nos levantarmos, eu e Filipe. Fomos passear para o jardim. Como acompanhava muitas vezes o seu pai de negócios, Filipe tinha aprendido a gostar de ritmos musicais diferentes, mais modernos. Sabendo que uma banda que apreciava ia tocar nessa noite, no café Vianna, convidou-me a acompanhá-lo. Os meus pais ficaram algo constrangidos, mas, depois do jantar, chamaram Zacarias para nos levar.
Era a primeira vez que entrava naquele café pois raramente saía de casa. Era amplo, repleto de espelhos de talha dourada nas paredes que os sofás vermelhos e os reposteiros punham em destaque; era um espaço agradável frequentado por muitos jovens. Também havia uma sala de jogos na parte de trás. Sentamo-nos, fomos bem recebidos e fizemos o pedido...
Para não variar, Filipe continuava a gabar-se ... então, farta da sua conversa, disse-lhe que ia apanhar ar. No momento em que abri a porta, um dos músicos esbarrou comigo e houve uma troca de olhares difícil de descrever e uma química inexplicável ...
Quando voltei para dentro, a sala estava na penumbra e os músicos tocavam algo romântico pelo que percebi. Já era tarde e decidimos voltar; Filipe deixou-me no palácio e despedimo-nos.
Mal me deitei, não parei de pensar no músico. Dilda apareceu para saber como tinha corrido a noite.
- Então, menina, como correu o encontro?
-Podia ter corrido melhor... Filipe não é, com toda a certeza, a pessoa com quem quero passar a minha vida!
-Mas ... essa cara ..., vejo que estás muito contente! Afinal, o que se passou?
-Ah... não te escapa nada, não é?
-Conta-me lá o motivo dessa felicidade.
Resumidamente, contei-lhe o que se passara:
-Senti algo inexplicável quando me esbarrei com um dos músicos: era lindo, de cor negra, um olhar simpático, possuía um sorriso franco, cativante que me deixou sem palavras!
-Ai, ai! Os teus pais não vão gostar da decisão, menina Constança ...Mas, agora dorme que amanhã vão ser um dia longo. Boa noite!
-Boa noite, Dilda.
No dia seguinte, levantei-me, vesti-me, prendi os meus longos cabelos louros e dirigi-me à sala para tomar o pequeno-almoço. Entretanto chegaram os meus pais e conversei com eles acerca da desilusão que o duque tinha sido para mim e que não sentira qualquer afinidade por ele. O meu pai não aceitou muito bem, porém a minha mãe compreendeu perfeitamente. Nesse dia à noite, não resisti à tentação e, sem os meus pais saberem, fui ao Café Vianna para o ver. No fim do concerto, trocamos olhares e ele decidiu sentar-se a meu lado para conversarmos.
- Olá, por aqui de novo? Desde já, peço desculpa do nosso pequeno "encontrão"...
Rimos, descontraidamente.
- Gostei bastante das vossas músicas e decidi voltar.
-Já agora, como se chama?
- Constança ... e o "senhor distraído"?
-Ah! Ah! - Gargalhou - Chamo-me Inácio. Não veio com o seu namorado?
- Qual namorado?!
- Aquele que estava consigo ontem à noite.
-Ah! Sei a quem se refere, mas ele não é meu namorado... para lhe contar a verdade, estávamos a ter um encontro, que foi decidido pelos meus pais.
- Mas, então não pretende ficar com ele?
Expliquei-lhe o porquê de não o querer para noivo. Falamos durante algum tempo e, como já estava a ficar tarde, decidi regressar e Inácio ofereceu-se para me acompanhar até casa.
Quando chegámos, despedimo-nos e entrei. Voltei-me para trás quando ouvi Inácio chamar-me.
-Amanhã, podemos encontrar-nos na Fonte do Ídolo?
-Claro que sim ... então, até amanhã!
-Boa noite!
Agradeci, sorri-lhe e voltei para o palácio. Subi as escadas e dirigi-me ao quarto para dormir; tinha sido uma noite cheia de emoções. Na manhã seguinte, fiz a minha rotina habitual, mas, de tarde, decidi praticar mais tempo de piano, sentia-me inspirada para a música! Passado algum tempo, jantei, e porque não podia estar sempre a sair (era uma jovem condessa e tinha que ter um comportamento como tal), pedi a Dilda ajuda para "fugir", sem que os meus pais notassem. Mais uma vez, fui ter com ele.
Inácio já se encontrava na Fonte do Ídolo. A lua iluminava o recinto; conversamos algum tempo e, inesperadamente, ele foi buscar a viola que estava por detrás da fonte e fez-me uma serenata. Foi um momento encantador: Inácio, a serenata, o silêncio daquele monumento milenar em pedra ... Mas eu tinha que regressar. Decidimos ir para o meu jardim, entramos pelas traseiras e ficamos lá mais um pouco, até que me apercebi que Zacarias estava a colocar os cavalos nas cavalariças e podia apanhar-nos ali. Então, Inácio disse que era melhor retirar-se e ... de repente, só me lembro de sentir aqueles lindos lábios. Beijamo-nos e, a partir daquele beijo, percebi que era ele que eu queria para o meu futuro. Fui-me deitar e não parei de pensar nos acontecimentos daquela noite; cada vez tinha mais vontade de estar com ele.
A partir desse dia, continuamos a encontrar-nos e, numa noite de verão, ele convidou-me para ir assistir a mais um concerto que ia fazer no Café Vianna. Dedicou-me uma música juntamente com a sua banda e a mascote (a mascote era um boneco que o Café Vianna adotou e com a qual procurava homenagear a banda: era de cor negra e vestia igual aos membros da banda de Inácio). No final, a banda parou e Inácio pediu-me que chegasse mais perto e ajoelhou-se para pedir a minha mão. Confusa, saí a correr; Inácio veio atrás de mim, pegou-me no braço, abraçou-me e nesse momento, não contive as minhas lágrimas.
-Desculpa, os meus pais não vão aceitar esta relação. Não devíamos ter continuado com estes encontros ....
-Constança, eu amo-te! Independentemente de os teus pais não aceitarem a nossa relação, nós temos de tentar.
- Tens razão. Quando estiver preparada, falo com os meus pais, até lá mantemos a relação em segredo...
Inácio concordou e estivemos dois meses assim.
No dia 15 de setembro, no meu aniversário, Inácio fez-me uma visita, à noite, no jardim do palácio. Zacarias espiou-me e contou o que tinha visto aos meus pais, mas eu só o soube no dia a seguir. Na manhã seguinte, os meus pais disseram que queriam falar comigo. Ambos estavam com sérias e fortes expressões, o que me fez perceber logo do que se tratava. Nesse momento, parecia que o meu mundo tinha desabado. Tive uma forte discussão com eles, o meu pai estava totalmente em desacordo com a nossa relação.
- O que achas que vão pensar de nós ao ver a filha do conde de Bertiandos com alguém que nem pertence sequer à burguesia? Para além do mais, é negro! Onde já se viu tal disparate?
- Pai, o senhor está a ser injusto! Só quer saber do que pensam acerca de si e não quer saber da felicidade da sua única filha! Acha isso correto? Quer ver-me casada com alguém que me deixe infeliz? Parece que sim...
Saí dali a correr e fui chorar para o meu quarto. Ao jantar, já estávamos mais calmos e pedi-lhe uma oportunidade para conhecer Zacarias. Podia ser que mudasse a sua opinião acerca dele e que se apercebesse do quanto ele me fazia feliz. O meu pai nem me respondeu, estava muito zangado comigo.
Andei uma semana completamente desolada, sem chão, não falava com ninguém, nem mesmo com Dilda. Já não passeava de manhã no jardim para respirar o ar puro da natureza e quando olhava pela janela ainda me lembrava do local onde estivera com Inácio. Não parava de pensar nele, os nossos momentos não me saíam do pensamento, estava cheia de saudades, mas o que me entristecia mais era o facto de o meu pai não querer saber da minha felicidade e estar apenas preocupado com o que os outros iriam pensar. Evidentemente, o meu pai reparou que eu andava bastante triste e, um dia, apareceu no meu quarto para conversarmos.
- Bom dia, filha, podemos conversar?
- Se for por um bom motivo, sim... - disse eu, desinteressada.
- Reparei que tens andado muito em baixo e penso que possa ser pela ausência de Inácio... Estive a pensar bastante e vou dar-te a oportunidade de trazeres Inácio cá a casa para o conhecer.
- Muito obrigado, pai, vai adorá-lo. Tenho a certeza!
Parece que o meu sorriso contagiou até o ambiente ao meu redor, um sol nasceu no meu quarto, desci as escadas e pedi a Zacarias que me levasse à cidade para contactar com Inácio e convidei-o para jantar em casa com os meus pais. Ele ficou muito contente.
Nessa noite, fui eu própria abrir o portão a Inácio. Ele estava lindo, com um fato azul escuro, camisa e borboleta branca a sobressair. Abracei-o de imediato. Seguimos para a sala de jantar, apresentei-o aos meus pais e sentamo-nos todos. A conversa estava a fluir muito bem sobre viagens, política, música ... o meu pai estava a adorá-lo (tal como eu tinha previsto), até já estavam às gargalhadas! Os meus pais gostaram bastante dele e perceberam que era um bom partido para mim.
Passado cerca de um ano casámos e os meus pais não podiam estar mais felizes ao ver-me feliz também. Hoje temos dois filhos lindos, a Leonor e o Dinis, ambos bastante parecidos com os avós paternos e maternos e são uns meninos muito adoráveis. Se não tivéssemos ultrapassado os preconceitos e as dificuldades, não teríamos chegado à verdadeira felicidade.
Ah! Já me esquecia de vos dizer que, todos os anos, festejamos o aniversário do nosso abençoado "encontrão" no acolhedor Café Vianna, sob o olhar cúmplice da mascote ...
Autores: Ana Cardoso; Fátima Gonçalves e Joana Ramos
Miles
Era noite de lua cheia. Estávamos, como combinado, à entrada do Palácio Dos Biscainhos que pertencia aos condes de Bertiandos, uma família aristocrata, célebre na cidade pela sua riqueza. Faltava um quarto para as dez e esperávamos a chegada dos guardas-noturnos. Assim que chegaram, tratamos logo de dar início ao nosso plano.
Logo que entrámos no Palácio, ficamos deleitados com tanta beleza, desde os tetos luxuosos às paredes decoradas com imponentes painéis de azulejos. Subimos a escadaria até ao segundo andar e seguimos o corredor estreito e sombrio que nos levava à capela. Estávamos a poucos momentos de concretizarmos o nosso objetivo.
Estava ali mesmo, à nossa frente: o móvel Oratório! Era decorado a talha dourada, tendo no seu interior a Custódia, tal e qual como a tínhamos idealizado.
Com celeridade, pegamos na Custódia e corremos em direcção às escadas exteriores que nos levavam aos jardins, um vasto espaço, de aproximadamente um hectare, enriquecido com diversas fontes e esculturas barrocas. O espaço era tão deslumbrante que não era de admirar que, no reinado de Luís I de Portugal, tenha merecido a honra de ser visitado pela família real. Avançamos a vedação e corremos em direcção aos nossos cavalos.
Mais um assalto bem sucedido! Arrisco-me a dizer que foi dos nossos melhores ataques. Certamente, o país não se esquecerá de nós, o Grupo Miles.
Um século passou e hoje sou eu a tomar as rédeas do Grupo Miles, criado pelo meu bisavô. Confesso que o bem da herança que mais me desperta atenção é a Custódia dos condes de Bertiandos, roubada ao Palácio dos Biscainhos num assalto primoroso. Na tarde chuvosa de quinta- feira, tínhamos marcada uma reunião do Grupo Miles na nossa sede, o Café Vianna, um café na Arcada, muito requintado e frequentado pela alta burguesia bracarense. O café, que até já foi uma espécie de banco, funciona como clube social e salão de jogos e há noite como bar. A seguir à 1ª Guerra Mundial, não havia trocos em Braga e o café Vianna dava senhas que as pessoas trocavam por artigos, por exemplo, na mercearia. O seu interior é ainda mais fascinante que a sua história, desde as enormes portas de ferro espelhadas que dão entrada ao café, aos amplos espelhos rebocados a dourado que cobrem as paredes. O chão forrado a azulejos com insígnias, as mesas de design clássico e as inúmeras poltronas encarnadas, tudo oferece um maior conforto aos clientes. À hora combinada, todos os elementos foram chegando. Misturados com os restantes clientes, ninguém suspeitaria que éramos o Grupo Miles, um grupo perigoso e "famoso" pelos seus assaltos, que fazia do café Vianna a sua sede.
Sem levantar suspeitas, sentamo-nos numa mesa ao fundo da sala, fizemos sinal à D.Carla, a empregada mais simpática da "casa "; com a cortesia usual, de imediato se dirigiu até nós e anotou o nosso pedido, como já era habitual.
Finalmente saciados, demos início à reunião.
- Entrou em contacto comigo um contrabandista especializado em antiguidades e fez-nos uma proposta tentadora para a compra da Custódia.- Informou Verónica aos restantes membros.
Apesar de algumas caras de espanto e indignação inicial, todos acabaram por concordar com a proposta feita pelo contrabandista a Verónica.
A Custódia acabaria por ser leiloada na fronteira espanhola, no mercado negro.
Nesse leilão, só pessoas do alto estatuto social estariam presentes. Entre elas, António Augusto Nogueira da Silva, descendente de uma família da burguesia bracarense, ligada ao comércio e à área financeira. Nogueira da Silva era um grande apreciador de arte, fortemente ligado ao estado salazarista.
No dia do leilão, Nogueira da Silva ficou imensamente interessado na Custódia. Logo que teve oportunidade, ofereceu uma exorbitante quantia de dinheiro. A sorte acabou por estar do seu lado e conseguiu ficar com ela.
Nogueira da Silva era casado com Maria Eugénia há 20 anos a quem oferecia muitas das peças de arte que comprava. Unia-os um amor puro, sincero e harmonioso e poucos são aqueles que vivem um amor assim.
A notícia que Nogueira da Silva tinha adquirido uma nova peça de arte religiosa correu a cidade bracarense e a sua periferia. Quando o Grupo Miles percebeu que a "sua" Custódia tinha sido comprada por aquele ilustre bracarense, todos tiveram o mesmo pensamento: Nogueira da Silva era o alvo certo para o Grupo Miles pois era possuidor de uma grande fortuna e de uma mansão com objetos valiosos importados de todo o mundo, avaliados numa enorme fortuna. No mínimo, conseguiriam "reaver" a Custódia ...
Nogueira da Silva iria ausentar-se da cidade por uns dias, em virtude de uma reunião com o executivo português na Capital; era a altura perfeita para o Grupo Miles atacar. Com Nogueira da Silva ausente, a casa seria fácil de assaltar visto que, quando ele se ausentava, levava consigo todos os seus empregados e seguranças pessoais. Logo, a casa ficaria desabitada. Tudo favorecia o Grupo Miles, até que surgiu uma notícia avassaladora que poderia alterar os planos: Maria Eugénia não iria acompanhar o marido nesta visita à Capital.Com Maria Eugénia em casa, o Grupo não poderia atacar.
Depois de se reunirem e pensarem no assunto, chegaram a consenso. Maria Eugénia era uma "pedra" demasiado grande no caminho do Grupo Miles e teria que ser retirada para que o plano decorresse conforme pretendiam. Não foram precisos muitos dias para que da teoria se passasse à prática. Maria Eugénia teria de ser eliminada de forma misteriosa - um envenenamento seria perfeito. Para isso, Verónica encarregou-se de ir comprar umas saquetas de chá à mercearia Meira e Silva, do Sr. Manuel, no Campo da Vinha. Lá podiam-se comprar chás importados de todo o mundo, principalmente do Oriente e de que Maria Eugénia era apreciadora.
Adulterando a composição do chá, adicionando gotas de um veneno fatal, Maria Eugénia teria morte imediata logo que o ingerisse. Verónica e o restante grupo com os seus truques e manhas conseguiram entrar na cozinha de Nogueira da Silva e substituíram o chá habitual, que seria servido a Maria Eugénia, pelo chá adulterado com veneno. O chá foi servido a Maria Eugénia e foram precisos apenas dez minutos para que ela sucumbisse. O caos instalou-se na casa de Nogueira da Silva.
Dias depois da morte da sua amada e depois de lhe ter prestado o seu luto, Nogueira da Silva partiu para a capital, como estava previsto.
Era nessa noite que o Grupo Miles iria atacar. Marcaram encontro, junto à entrada da mansão de Nogueira da Silva. Faltava um quarto para a meia noite. Estava tudo a postos para dar início a mais um assalto que tinha tudo para ser genial.
Com Maria Eugénia eliminada, a casa estava vazia, só se ouvia o som do vento a soprar nas árvores e arbustos que decoravam o majestoso jardim.Com aceleradas passadas, o grupo entrou na mansão, com Verónica a indicar o caminho aos restantes.
Quando estavam quase a concluir o assalto e se dirigiam à última divisão da casa, uma sala perto da biblioteca com um móvel de castanho envernizado da época de Luís XIV. Qual não foi o espanto do grupo quando viram um objeto em cima do venusto móvel: era a majestosa Custódia e, por alguns segundos, todos a admiraram até que um súbito barulho os sobressaltou...
Era Nogueira da Silva acompanhado por militares armados e pela PIDE (policia militar de defesa do estado). Como nos teriam descoberto?
Rendemo-nos de imediato, não tínhamos escapatória possível. Depois de anos de experiência a planear e a efetuar extraordinários assaltos, fomos apanhados!
Será o fim do Grupo Miles? Não! a nossa história não acaba aqui, ainda temos muitos golpes para dar e ataques para planear.
Estejam atentos!
Autores: Cláudia Pereira; Guilherme Barbosa e Joana Araújo
A página rasgada
Num dia primaveril, uma senhora e a sua filha entram na livraria "Centésima Página", também conhecida como "Casa Rolão", na Avenida Central, em Braga. É um belo edifício da primeira metade do século XVIII que a família Rolão, que se dedicava ao fabrico de sedas, encomendou ao arquiteto André Soares. Na fachada imponente, destacam-se quatro portas no piso térreo e quatro janelas de sacada no piso superior, com cantarias lavradas, em estilo rococó. A mãe e a filha entram de mão dada mas, quando a criança se apercebe que se encontra num local repleto de livros divididos em secções ao qual chamam livraria, a sua expressão facial muda drasticamente, perdendo a expressão de felicidade por passear com a mãe para manifestar aborrecimento e desilusão com o que via.
A mãe, interessada num livro que já tinha captado a sua atenção, diz à filha que se dirija à secção infantil para ver se gostaria de algum livro. Pelo caminho, a menina repara num livro com uma capa e lombada dourada que lhe suscita curiosidade; retirou-o da prateleira e começou a ler. O livro contava um romance, no século XVIII, entre dois jovens bracarenses: Maria Leonor e Tomás de Sousa.
"Em pleno verão de 1761, Maria Leonor, de família nobre, passeia com a mãe pela cidade de Braga e, de repente, cruza-se com um rapaz de pele morena, olhos profundos, castanho escuros e bem vestido. A troca de olhares revelou, de imediato, empatia e carinho, ao ponto de sorrirem um para o outro.
Leonor, uma rapariga loira com cabelo fortemente ondeado, olhos verdes, tom de pele dourado, aparência delicada e suave, era de uma família de destaque e de grande importância na sociedade. A sua família, conhecida pelo apelido "Bertiandos", tinha construído uma nova casa no século XVII que vinha sendo modificada ao longo do tempo. Era uma casa apalaçada com inúmeras e luxuosas divisões e com um jardim tão vasto que os olhos humanos não o alcançam por completo. Os pais de Leonor decidiram "inaugurar" as mais recentes modificações, convidando as famílias mais prestigiadas da cidade de Braga para um baile. A família preparou e enviou os convites.
Chegado o dia da inauguração, Leonor estava expectante com a possibilidade de, porventura, poder voltar a ver aquele rapaz que lhe despertara interesse e que, de certa forma, a atraíra. Pela sua aparência, devia pertencer a alguma família abastada de Braga e talvez estivesse na lista de convidados.
Durante a receção, os dois jovens chocam um com o outro. Tomás, com receio de a perder de novo, não desperdiça a oportunidade para a conhecer. Tentam arranjar assunto para conversarem, mas acabam por se atrapalhar num misto de vergonha e extrema timidez. Discretamente, como se tivessem combinado, ambos se dirigiram para um recanto do jardim, rodeado de camélias e com uma pequena fonte ao centro, para poderem estar mais à vontade. Mas, mal tinham começado a conversa, ouviram um barulho como se fosse um trovão..."
Em pleno século XXI
Sentada no chão da 100ª Página, a menina não estava muito contente com o rumo da história pois não passava de mais um clichê, cujo final era previsível. Com aborrecimento, e devido à sua reduzida idade, sem pensar e num impulso, arranca a página que dava continuidade à história e, ouvindo passos, guarda rapidamente o livro ficando com a página na mão. Nesse preciso momento, a mãe apareceu junto dela e disse-lhe que iam embora; num sobressalto, a menina agarra no primeiro livro que encontra e coloca lá dentro a página rasgada. De seguida, foi-se embora com a mãe sem se preocupar muito com o que acabara de fazer.
Entretanto com Tomás e Leonor...
De repente tudo muda. Na casa dos "Bertiandos", que viria a ficar conhecida como "Palácio dos Biscainhos", o jardim magnífico em que se encontravam Leonor e Tomás já não existia; o imenso calor de verão que se fazia sentir, era agora um dia fresco de primavera. As alterações do espaço eram evidentes: agora estavam num jardim mas completamente diferente, junto de uma espécie de pequena fonte. Apercebendo-se que algo se tinha passado, os dois jovens olham um para o outro como se tentassem encontrar a resposta ou explicação para o sucedido; estavam apreensivos, no entanto felizes por se encontrarem juntos.
- Mas ...o...o que aconteceu? - Perguntou Tomás.
- Onde estamos? - Questionou Leonor.
Como vamos sair daqui? - Disseram, em simultâneo, Tomás e Leonor.
Incrédulos, olharam em seu redor, e, numa tentativa de perceber onde estavam, iam descrevendo o que viam para ver se algum deles reconhecia o local.
- Atrás de nós está um jardim com uma diversidade plantas diferente do grande jardim dos Biscaínhos. A parte da frente da casa é bonita, revestida com típicos azulejos portugueses e uma varanda com características parecidas com as nossas casas. Para além disso, o jardim tem uma esplanada agradável, fresca, convidativa à leitura ou a convívios.
Decidiram entrar na casa cautelosamente, ao encontro do desconhecido. Ficaram perplexos com a quantidade e diversidade de livros que se encontravam nas prateleiras. O entusiasmo era tal, que decidiram folhear atentamente alguns livros. Como eram diferentes dos livros a que estavam habituados! - a textura da folha, o relevo, o tipo de letra... A funcionária, apercebendo-se de movimento (tendo em conta que não os viu entrar) e estranhando o jovem casal devido aos seus trajes e penteados insólitos, dirige-se aos dois dizendo:
- Precisam de alguma coisa? - perguntou com um tom um pouco rude.
Tomás, apercebendo-se do receio da companheira, segura firmemente a sua mão num gesto de proteção e encorajamento.
Retraídos, perguntaram:
- Onde estamos?
- Na "Centésima Página" ou "Casa Rolão", em Braga, ... - disse a funcionária, atenta às reações de ambos.
Leonor e Tomás olham um para o outro aliviados por estarem na mesma cidade, tendo em conta que poderiam estar num sítio mais longínquo. Hesitantes, perguntam:
- Pode dizer-nos a data de hoje? Em que ano estamos?
Com um tom desconfiado, e de certa forma admirada, a funcionária respondeu:
- 11 de maio de 2018.
Eles não esperavam ouvir aquela data, mas sim trezentos anos antes. Instala-se um silêncio hesitante entre os dois.
Entretanto, na rua, ao fazer o percurso até casa, a mãe da criança ia a refletir no livro que hesitou em comprar. Arrependida por não o ter feito, volta para trás com a filha para o adquirir.
De regresso à 100ª Página, a menina repara na figura e nas características "invulgares" de Leonor e Tomás. Não os reconhecendo de imediato, estranha o vestuário e associa, com alguma dúvida, as suas semelhanças às personagens do livro que anteriormente estivera a ler. Para ter a certeza das suas suspeitas, vai buscar o livro e volta a ler a passagem onde se descreve a aparência dos personagens. Extremamente chocada com a situação, vai falar com o jovem casal.
- Como se chamam? De onde vêm?
- Eu sou o Tomás, esta é a Leonor e vimos da Casa dos Biscainhos.
- Ah, vocês pertencem à minha história!
As duas personagens do romance, muito confusas e surpreendidas, perguntam:
- Qual história?! Mostra-nos!
A rapariga corre imediatamente para a estante e conta o que se passou, mostrando também a página rasgada. Eles perguntam o porquê de a ter rasgado e ela explica resumidamente:
- Pensava que era mais um romance "cor-de-rosa" característico e que, como todos os outros, iria acabar com a frase "E viveram felizes para sempre...". Sendo assim, não valeria a pena estar a lê-lo!...
Surpreendidos com o que acabaram de ouvir, Tomás e Leonor decidem reconstruir a história, tendo ainda uma leve esperança de que tudo pudesse voltar ao normal. Como era vontade de todos recolocar a história no seu devido lugar, principalmente para resolver, ou pelo menos minimizar, os estragos que aquele rasgar de página tinha provocado, procuram os três com afinco a misteriosa página.
Para ganhar mais tempo, a criança, propõe à mãe que lanche na cafetaria da 100ª Página ou então no jardim das traseiras; a mãe optou pela cafetaria e aproveitou para iniciar a leitura do livro.
A menina retoma a busca pela página, e depois de uma longa procura, quando a esperança já era escassa e quando já tinham sido vistos todos os livros da livraria, com a exceção de um, "O romance na Casa dos Biscaínhos", a menina desesperada, vai, numa última tentativa ver se a folha lá está. Quando vê que a página se encontra no livro, dá um grito de alegria. Tomás e Leonor correm para junto dela. Afinal de contas, a criança, devido ao susto e ao medo que a mãe lhe tinha provocado, acabou inadvertidamente por deixar a página no mesmo livro donde tinha sido rasgada. Juntos, os três tentam colar a página. Foi necessária muita precisão, minúcia e fita-cola para a colocar no seu devido lugar, de onde, aliás, nunca deveria ter saído.
Terminada a colagem, Tomás e Leonor, desolados e com permanentes incógnitas sobre a maneira como iriam sobreviver num mundo novo, vão andando pelo jardim para refletir e sentam-se junto à fonte. Maria Leonor, finalmente, ganha coragem e, apesar de muito hesitar, fixando os seus olhos verdes nos olhos castanhos de Tomás de Sousa, consegue confessar-lhe os seus sentimentos por ele. Mostrando o que lhe ia na alma, o rapaz acaricia de forma suave e deleitosa o rosto dela e num impulso, realiza o tão esperado desejo de a beijar. Repentinamente, uma súbita força, como se de um tornado se tratasse, sugou as duas personagens de volta para a história, regressando ao jardim da Casa dos Biscainhos, onde fora interrompido aquele que seria o início da história de amor de ambos. O amor e a união entre eles eram tão fortes que nem deram conta que voltaram ao jardim onde tudo começou.
A menina, essa, ficou com tanta curiosidade para saber o final da história que acabou por terminar a leitura do livro, ali mesmo, sentada no chão da 100ª Página. Os dois jovens ganharam mais proximidade devido à aventura que viveram, tornando assim a sua história de amor num conto tradicional que, tal como a menina previra, também acaba com a frase: "E viveram felizes para sempre!".
Autores: Ana Maria Sá; Gabriela Gomes e João Sousa
UM AMOR PROIBIDO, PENSAVA EU
Após 300 primaveras, sou hoje parte da madeira comum destinada a acender as vossas lareiras ao longo do inverno. E antes que caia no esquecimento das gerações antigas e nem venha sequer a ser conhecido pelos novos vou contar-vos uma das histórias que presenciei ao longo da minha vida.
Surgi do nada, sem saber como nem porquê, provavelmente por obra do vento cheguei até aqui, a um lugar lindo conhecido, antigamente, por Palácio dos Biscainhos. Posso dizer que, desde que me conheço, sempre fui um menino muito sociável e acariciado por toda a gente, tanto pelos humanos como pelos seres idênticos a mim, as outras árvores e plantas deste jardim maravilhoso: japoneiras, magnólias, castanheiros, buchos... Enquanto criança, fui tratado da melhor maneira possível, tive todos os cuidados que todos ainda na sua fase dependente precisam de ter. Acho que todos ficaram rendidos à beleza das minhas folhas e às minhas flores em forma de tulipa. Por isso, sou apelidado de Tulipeiro da Virgínia. Foi fácil habituar-me à ideia de que a minha vida seria aqui, não podia pedir um lar melhor e, acreditem, apesar da minha felicidade constante, questionei-me muitas vezes sobre o porquê de ter vindo aqui parar. Afinal de contas, nada tinha feito para isto.
Ao longo destes anos, presenciei momentos inesquecíveis como o nascimento dos filhos do Conde Meneses, Maria Angélica e João Maria, fruto do casamento com Teresa Teles e Meneses. Foram eles quem mais brincou na minha fresca sombra sem nunca me deixar cair na solidão. Não apenas eles, mas também a pequena Alice, cuja progenitora era empregada de cozinha no Palácio. Alice era uma menina de cabelos loiros, longos, com caracóis perfeitos e tinha olhos tão azuis como o céu limpo numa manhã de verão. Era uma menina muito especial não só pela sua beleza física, mas também pela sua beleza interior pois, acima de tudo, era humilde, trabalhadora e delicada. Infelizmente, teve de crescer cedo para poder ajudar a sua mãe que, por tristes razões, também fazia o papel de pai. O pai de Alice, um elemento da nobreza bracarense cuja identidade ela nunca revelou, não assumiu a sua responsabilidade e tinha-as abandonado e deixado à sua sorte porque não podia mostrar à sociedade que havia tido um filho com uma pobre camponesa. Para continuar a ter um teto para dormir e comida para sobreviver, Alice tinha, então, de ajudar a mãe no que ela precisasse e fazia-o com a maior perfeição e alegria, pensando ela, na sua inocência de criança, que um dia viria a ser tratada como as outras crianças que habitavam o Palácio dos Biscainhos. Porém, demorou anos para que isso acontecesse.
A rotina em casa foi sempre a mesma até ao dia 11 de junho de 1820. O dia começava de madrugada com o canto do galo, sendo as empregadas as primeiras a levantarem-se. A D. Maria era a responsável por ir buscar queijo à Queijaria Central para o pequeno-almoço. O senhor Mário, o proprietário, fazia sempre um preço especial (aqui só entre nós, acho que ele sentia algo pela Maria, mas a dúvida ficou sempre por esclarecer). A Queijaria Central era um lugar muito movimentado e muito conhecido pelos seus maravilhosos queijos caseiros, uma delícia! A D. Julieta estava encarregue de ir comprar o café à Casa Negrita, lugar de onde era impossível sair triste pois o senhor António animava toda a gente com as suas anedotas matinais enquanto a encomenda era preparada. Era um espaço amplo, acolhedor e tinha o melhor perfume da cidade: o aroma do café acabadinho de torrar! Ainda ao passar pala Mercearia Meira e Silva, na esquina da Rua dos Capelistas e do Campo da Vinha, a D. Julieta comprava o pão, frutos secos e as alheiras que o Sr. Conde não dispensava para começar o dia cheio de vitalidade. Com todos estes produtos comprados no comércio local, se fazia o pequeno-almoço e se enchia a enorme mesa das refeições do Palácio.
Depois do pequeno-almoço, Maria Angélica e o seu irmão mais velho, João Maria, iam para a escola, que era ainda uma novidade naqueles tempos. Enquanto isso, o Conde e a Condessa faziam a ronda ao palácio para verificar se todos os deveres estavam a ser realizados e, logo depois, partiam para os mais variados sítios das suas propriedades, orientando as diferentes atividades.
A vida no palácio sempre foi assim, apenas umas "guerras" de vez em quando, mas nada de extraordinário, até que no dia 11 de junho de 1820, Teresa Teles de Meneses, faleceu, aos 40 anos, devido a um vírus que terá apanhado numa das suas viagens a África. A partir deste dia tudo mudou, as crianças ficaram muito abatidas, como era de esperar, mas, ao longo do tempo, foram superando. Pior ficou o conde que não conseguiu lidar com a situação e acabou por cair numa grave depressão, pois o amor que sentia pela sua mulher era inexplicável.
Entre 1820 e 1822, os dias naquela casa foram vividos na maior angústia e tristeza. O conde não saía do quarto onde apenas entrava Camila, a mãe de Alice, empregada da cozinha, para lhe levar as refeições pedidas e as mezinhas para a sua recuperação. Aos poucos, a recuperação do Conde Meneses foi-se tornando visível e Camila passou a ser mais bem tratada. Frequentemente, passava por mim a cantarolar, mais alegre, parecia até uma jovem apaixonada!
Comecei a desconfiar ...
Passados uns tempos, a minha teoria comprovou-se. Camila estava mesmo apaixonada, mas era um amor que nunca seria aprovado, pensava eu, preocupado... O romance era com o Conde Meneses e eu sabia que Camila era correspondida, pois um tulipeiro do meu tamanho (cresci muito ao longo de 300 anos!) conseguia ver através daquela janela olhares meigos e gestos cúmplices que mais ninguém conseguia observar. Com o passar dos meses, o Conde já parecia outro, longe de depressões e outras doenças. Já comia à mesa junto da família e, num desses momentos, perante todo o palácio, assumiu a sua nova paixão.
Os seus familiares não reagiram bem, mas o Conde não deixou que nada afetasse aquela relação que todos se viram obrigados a respeitar e aceitar.
Camila deixou de ser uma simples empregada de cozinha e passou a ser a mulher mais importante daquele Palácio. Alice, como nos seus sonhos de criança, foi finalmente aceite pelo conde (claro, já tinham adivinhado, era ele o pai dela!) e, daí em diante, foi tratada como uma verdadeira princesa tal como os outros filhos.
No jardim do Palácio dos Biscainhos, mesmo junto do meu tronco e debaixo dos meus ramos protetores e cúmplices, houve o mais bonito e romântico pedido de casamento de Braga. Quase chorei! O Conde e Camila casaram seis meses depois.
As rotinas antigas voltaram e esta família ganhou uma nova mãe que se manteve humilde e carinhosa com todos na casa como quando era uma empregada sem esperança num futuro mais risonho.
Querem saber mais histórias? Venham daí, que eu, o Tulipeiro da Virgínia, conto!
- Autores: Maria Inês, Mariana Ferrete e Teresa Veiga
A Aliança
No ano de 1952, o Dr. Felicíssimo do Vale Rego Campos, presidente da Junta da Província do Minho e o comendador António Augusto Nogueira da Silva, fizeram uma aliança com o objetivo de promover o comércio tradicional de Braga, de que era exemplo a Mercearia Meira e Silva, situada na esquina da Rua dos Capelistas com o Campo da Vinha.
A Mercearia Meira e Silva era uma casa com uma oferta única de produtos diversificados e de excelência, dos quais são exemplo o café, o feijão, os frutos secos, as especiarias e a mercearia, produtos de que estes ilustres bracarense eram clientes habituais. Como se tinham tornado amigos dos proprietários e apreciavam a proximidade e delicadeza com que tratavam todos os seus clientes, consideraram que deveriam contribuir para que este estabelecimento comercial fosse mais conhecido dos habitantes de Braga. Eles próprios tinham memórias de infância das idas àquela tradicional e honesta Mercearia que não queriam esquecer.
Numa tarde de verão, reuniram-se na casa do comendador Nogueira da Silva para decidir o que fazer para promover a Mercearia. O escritório do comendador Nogueira da Silva era um espaço pequeno, acolhedor, mas sofisticado, cheio de obras e objetos que documentavam a sua fortuna material. Por toda a casa, havia autênticas relíquias, desde obras de arte e peças de prata a pequenos amuletos de marfim trazidos dos lugares que visitara. Após uma longa conversa, decidiram fazer um acordo com os donos da Mercearia. Este acordo teria dois momentos distintos: primeiro, eles próprios financiariam umas obras para além da aquisição de mais produtos tipicamente portugueses, como as alheiras ou as ameixas de Elvas; num segundo momento, os proprietários da Mercearia comprometiam-se a restituir o investimento, de acordo com os lucros recebidos. Depois foram falar com os donos da Mercearia Meira e Silva e apresentaram a sua proposta que, no exato momento, foi muito bem recebida. Decidiram colocar de imediato o contrato em prática para que as obras e a aquisição de novos produtos não se atrasassem.
Para comemorar este contrato, o Dr. Felicíssimo decidiu realizar uma festa em sua casa, no Palácio dos Biscainhos, para a qual convidou imensas pessoas de renome. O facto é que este foi um de muitos acordos que o Dr. Felicíssimo e o Nogueira da Silva estabeleceram, com o intuito de ajudar a comunidade e não na busca de reconhecimento como muitos poderiam achar. Ambos eram pessoas empenhadas na promoção do bem não só para as pessoas, mas também para a cidade de Braga. Com esta iniciativa de promoção do comércio tradicional, que começava com a Mercearia Meira e Silva, mas que se estenderia gradualmente a outros estabelecimentos, toda a cidade e todos os bracarenses sairiam beneficiados.
O imenso jardim do Palácio dos Biscainhos estava todo florido, com cores chamativas, aromas de Verão e a água das fontes corria límpida. Todos estavam entusiasmadíssimos com a beleza daquele jardim e com a razão de estarem ali.
Dando início à estratégia de promoção da Mercearia, iam oferecer aos convidados presentes uma ceia no palácio, que seria confecionada com muitos dos produtos mais apelativos da mercearia de modo a promovê-los e chamar a atenção dos convivas.
Durante a ceia, apesar de se encontrarem naquela sala imensos convidados, havia um que se destacava, Alberto Soares, um grande republicano que havia sido retirado do seu cargo de diretor da Biblioteca Pública de Braga, facto que o deixou despeitado. Alberto um homem ambicioso e ganancioso que procurava aumentar a sua fortuna, utilizando qualquer meio para tal.
Alberto Soares ouviu a comunicação que o Dr. Felicíssimo e o Comendador Nogueira da Silva fizeram acerca do seu projeto e percebeu que aquele plano poderia render bastante lucro porque a Mercearia iria tornar-se numa loja cheia de potencialidades. Logo concebeu um plano para ser ele a firmar contrato com a Mercearia Meira Silva: teria que fazer com que as pessoas pensassem que o objetivo de Nogueira da Silva e do Dr. Felicíssimo era obter proveito próprio e não beneficiar a comunidade. Para poder concretizar o seu plano, decidiu pôr rumores a circular (sem sujar a sua própria imagem, apenas insinuando e comentando com conhecidos), consciente de que esta mensagem se iria espalhar de boca em boca e que, à medida que o rumor se fosse espalhando, as pessoas iriam acrescentar sempre uma nova "prova" das segundas intenções que teriam levado Nogueira da Silva e Dr. Felicíssimo a procederem à realização deste contrato com a Mercearia.
Na verdade, à medida que o rumor se ia espalhando, ia aumentando de proporções e, naturalmente, acabou por chegar aos ouvidos não só dos donos da Mercearia como também dos promotores da iniciativa. Os donos da Mercearia não queriam acreditar naquilo que ouviam, no entanto, eram tantos os comentários, que eles já se questionavam se não era mesmo possível ser verdade. Perante os factos, os dois beneméritos questionavam-se sobre o que era correto fazer para garantir que a Mercearia nunca ficasse prejudicada com estes rumores. Nogueira da Silva e o Dr. Felicíssimo pretendiam não só provar que o que as pessoas diziam estava errado, mas também descobrir quem era o responsável, de onde tinha surgido tal rumor. Os dois já andavam desconfiados de Alberto Soares desde o dia da ceia, pois este demonstrara um enorme interesse pela Mercearia, interesse que se tornou mais evidente quando Nogueira da Silva e Dr. Felicíssimo apresentaram o contrato que iriam realizar em conjunto com a Mercearia. Decidiram confrontar Alberto Soares e acabaram por descobrir que ele agira assim, movido pela revolta que sentia por ter sido afastado do cargo que exercia.
Como homens honestos e magnânimos que eram, decidiram dar uma nova oportunidade a Alberto Soares para se redimir dos seus atos, passando este a ter que trabalhar na Mercearia Meira e Silva sem qualquer benefício, tendo que ajudar em tudo o que fosse necessário, tanto na Mercearia como no Palácio dos Biscainhos ou na casa de Nogueira da Silva, até que a sua dívida para com eles lhe fosse perdoada.
Os bracarenses podem estar gratos a estes dois ilustres cavalheiros . Graças a eles, a Mercearia Meira e Silva e outros comércios e instituições, com o benefício destes beneméritos, continuaram a proporcionar aos cidadãos produtos e serviços de qualidade.
Autores: Alice Moraes; Patrícia Melo; Paula Rodrigues e Vera Gomes
Braga, cidade com história e amor
No mês de junho de 1965, uma jovem, de nome Amélia, de olhos verdes, cabelos loiros e bastante elegante, decidiu, com os seus amigos, ir conhecer as festas populares do S. João, em Braga. Desta forma, poderiam, além de aproveitar para conhecer os festejos em honra do santo, matar as saudades dos amigos que tinham de Braga e que já não viam há bastante tempo.
No dia de S. João, o grupo rumou à "cidade dos arcebispos", onde se encontrou com os amigos bracarenses, entre os quais Hélder, um rapaz encantador e bem constituído. Como tinha passado muito tempo desde o último encontro, Hélder apercebeu-se de que Amélia estava diferente, mais bonita e mais interessante pelo que passou a noite sempre ao seu lado. Acabada a festa, Amélia e os amigos que a tinham acompanhado regressaram a Castelo Branco, confessando que tinham gostado muito da cidade e que iriam voltar logo que possível.
O tempo ia passando, mas Hélder não esquecia Amélia, o seu interesse por ela não diminuía, antes pelo contrário. Sentia necessidade de lhe falar, de comunicar com ela e, tomando coragem, enviou-lhe uma carta onde exprimia os seus sentimentos e a convidava a voltar a Braga para que ele pudesse mostrar-lhe melhor a cidade.
O primeiro impulso de Amélia foi aceitar o convite, porém não o pôde fazer por causa das aulas que já tinham começado. No entanto, os dois jovens foram comunicando e, mal ela acabou o secundário, deslocou-se a Braga, considerando que, para além de ficar a conhecer alguns pontos de interesse, também poderia ver se lhe agradaria fazer os seus estudos superiores na Universidade do Minho.
Hélder esperava ansiosamente a chegada de Amélia, pois ainda não conseguia acreditar que iria poder passar alguns dias com a rapariga dos seus sonhos. Quando a foi buscar à estação de comboios, estava muito nervoso, questionando-se "Será que ela vai gostar de mim, como eu gosto dela?"
Começaram a fazer a visita à cidade, no dia seguinte. O primeiro local escolhido por Hélder foi a Correaria Moderna. Resumidamente, contou a história daquela loja: fora criada há cerca de 140 anos e, inicialmente, apenas fabricava bolas para todos os clubes de futebol nacionais. Entretanto, a loja foi-se especializando em material de equitação e de marroquinaria. Enquanto falava, Hélder mostrava a Amélia vários produtos, desde roupa para equitação, selas próprias para a tourada à portuguesa, selins, material de caça e ainda a oficina onde tudo isto era produzido. Amélia ficou encantada ao ver as máquinas antigas que ainda estão a ser usadas, pois os proprietários gostam de manter a tradição no processo de manufaturação dos seus artigos e negam-se a ser absorvidos pela globalização que torna os produtos todos iguais e sem identidade própria.
Continuando o passeio pela velha Bracara Augusta, dirigiram-se ao Museu Nogueira da Silva onde Helder contou a história de amor dos seus pais, afirmando que tinha sido naqueles jardins que ambos se tinham conhecido durante uma visita de estudo das escolas que frequentavam. Como Amélia adorou o jardim, o rapaz decidiu levá-la a conhecer o Museu dos Biscainhos e o seu magnífico jardim. Embora tenha gostado de conhecer o interior daquele palácio barroco, a jovem ficou encantada com a diversidade de espécies vegetais do jardim. Como tinha um grande interesse pela área da biologia, decidiu "presentear" o seu companheiro com algum do seu conhecimento e falou-lhe, então do tulipeiro, originário da Virgínia, que deve o seu nome às suas flores em forma de tulipa, das japoneiras que, como o nome indica, são originárias do Japão, das magnólias de flores grandes e exuberantes .... Hélder estava cada vez mais fascinado por Amélia.
Como a fome já apertava, ele decidiu que o lanche seria nas Frigideiras do Cantinho, um café fundado em 1796 e que é o estabelecimento de restauração mais antigo da cidade. A casa é conhecida pelas suas famosas frigideiras, uma empada de carne e massa folhada cuja receita centenária passa de geração em geração mas não é divulgada ao público. Ambos confirmaram a justiça da fama de que este petisco goza. Sabendo da história da casa, depois do lanche, Helder pediu ao dono do café que lhes mostrasse melhor o local. Então, puderam visitar as ruínas, que são visíveis através do vidro que reveste o chão, mesmo por baixo da área onde os clientes são servidos e que são importantes achados arqueológicos da época romana (séc. II e III) quando Braga era conhecida por Bracara Augusta. Ouviram da boca do proprietário toda a história do edifício.
Tinha sido um dia fantástico e Amélia estava grata a Hélder por ter sido o seu cicerone na cidade. No entanto, este era apenas um dos muitos dias que iriam passar juntos. Hoje, decorridos já sete anos, continuam juntos e a pensar em casamento que gostariam de realizar no belo jardim do Museu dos Biscainhos.
O que seria dos museus, dos jardins e até das casas de comércio tradicional se não existissem olhos curiosos e amantes da História?
Autores: Ana Rita Duarte; Diana Silva e Mafalda Barbosa
Queijaria Central
''O dia em que o conheci''
19 de maio de 1930
Querido diário,
Ali está ele, pensando sabe-se lá em quê, ao mesmo tempo que dedilha as teclas daquele piano de uma forma extraordinária, neste salão sumptuoso. Toca muitas vezes a mesma melodia, de tal forma encantadora que não me canso de a ouvir. A harmonia perfeita entra a música e a vista deslumbrante para o jardim faz-me pensar e voltar atrás uma data de anos, ao dia em que o conheci.
A ida à Queijaria Central era quase uma rotina, e ainda bem. Pensava eu que era mais uma ida normal ao local do costume, mas enganei-me totalmente. Estava sentada na mesa do fundo, e eu, que não acreditava em amor à primeira vista, vi-o entrar e por algum motivo, sorri. A elegância única, a postura refinada, o olhar cativante chamaram-me tão intensamente à atenção que, se bem me lembro, tudo à minha volta parou momentaneamente. Estava tão focada e atraída que nem reparei que o Sr. José, dono da queijaria, estava ao meu lado:
- Dona Eugénia? ...
- Sim, Sr. José. Peço desculpa, estava distraída.
- Já vi que sim. Então a que se deve a sua distração?
- Nada de especial, coisas minhas...
''Nada de especial'', dizia eu com ar indiferente, mas era uma agitação interior mais que especial, estava, inquietamente, tentando demonstrar a maior normalidade e subtileza possíveis.
- Dona Eugénia, tenho 57 anos, já vi esses olhares muitas vezes. Digo-lhe já que se o que lhe vai na cabeça neste momento correr bem daqui para a frente, pode considerar-se uma mulher cheia de sorte! Este homem vale ouro!
E tinha razão. Ainda sem o nome dele saber, já sabia que o amava. Ele sentou-se, numa mesa perto da minha e ouvi uma voz encantadora perguntar:
- Vem cá muitas vezes?
Naquele instante olhei, parei, pensei e senti que aquilo era bom demais para ser verdade.
- Quase todos os dias. E o senhor? Nunca o vi por cá.
- Conheço muito bem o dono, ele até faz entregas em minha casa, por isso é que não venho muitas vezes, mas já vi que vale a pena.
- Já soube que Sr. José o conhece muito bem, falou-me muito bem de si.
- António, trate-me por António. E porque motivo fui eu assunto da vossa conversa?! - perguntou com enorme à vontade.
Ele levantou-se, veio na minha direção e sentou-se na cadeira ao lado. Eu não conseguia responder, procurando uma razão que não denunciasse o que estava a sentir.
_ Então? Por que motivo, senhora...? - insistiu ele.
- Eugénia... Maria Eugénia.
Disse-o com uma rapidez imensa, na esperança que ele não perguntasse novamente a razão pela qual já teria ouvido falar dele. Senti-me corar, tentei disfarçar um pouco o rubor e, pondo-me a olhar para a chávena, disse:
- Bonita chávena!
Com um ar descaradíssimo de gozo, retorquiu:
- Mas vai responder á minha pergunta, ou vou ter que vir cá amanhã?
-Assim como uma bonita chávena de chá me chamou à atenção, um homem bonito também pode chamar... -atrevi-me a responder.
Passados tantos anos ainda não sei como arranjei coragem para fazer uma afirmação tão franca.
Ficamos horas a conversar. Lembro-me nitidamente que ele não queria deixar-me ir embora de jeito nenhum, até veio comigo ao Pereira das Violas comprar linhas para uma toalha que andava a bordar. Acompanhou-se até casa, despedimo-nos de uma forma normalíssima, parecia que já nos conhecíamos há décadas.
Desde aí, a Queijaria Central nunca mais precisou de fazer a entrega do queijo que ele tanto apreciava e dos frutos secos em sua casa, pois ele fazia questão de ir lá pessoalmente... felizmente!
Depois veio o namoro e, passado não muito tempo, o casamento. Tive e tenho orgulho do apelido ''Nogueira da Silva'' fazer parte do meu nome. Foi, sem dúvida, a melhor decisão que tomamos. Poder acordar e olhar para ele todos os dias, poder dizer que o amo vezes sem conta, é do mais maravilhoso que a vida pode dar a alguém. Dizer com gratidão ''amo-te'' a alguém é mágico, pois são poucas as pessoas a quem o podemos dizer. É uma palavra pequena, mas de enorme significado, por isso é que a devemos usar somente com as pessoas certas, e eu acertei em cheio.
E continuo aqui sentada a apreciá-lo, somente à espera que termine de tocar a música que tanto nos une e lhe possa dizer, mais uma vez, que continuo a amá-lo como da primeira vez que o vi.
Maria Eugénia
Autores: Paula Rodrigues e Tatiana Silva
UM AMOR PROIBIDO, PENSAVA EU
Após 300 primaveras, sou hoje parte da madeira comum destinada a acender as vossas lareiras ao longo do inverno. E antes que caia no esquecimento das gerações antigas e nem venha sequer a ser conhecido pelos novos vou contar-vos uma das histórias que presenciei ao longo da minha vida.
Surgi do nada, sem saber como nem porquê, provavelmente por obra do vento cheguei até aqui, a um lugar lindo conhecido, antigamente, por Palácio dos Biscainhos. Posso dizer que, desde que me conheço, sempre fui um menino muito sociável e acariciado por toda a gente, tanto pelos humanos como pelos seres idênticos a mim, as outras árvores e plantas deste jardim maravilhoso: japoneiras, magnólias, castanheiros, buchos... Enquanto criança, fui tratado da melhor maneira possível, tive todos os cuidados que todos ainda na sua fase dependente precisam de ter. Acho que todos ficaram rendidos à beleza das minhas folhas e às minhas flores em forma de tulipa. Por isso, sou apelidado de Tulipeiro da Virgínia. Foi fácil habituar-me à ideia de que a minha vida seria aqui, não podia pedir um lar melhor e, acreditem, apesar da minha felicidade constante, questionei-me muitas vezes sobre o porquê de ter vindo aqui parar. Afinal de contas, nada tinha feito para isto.
Ao longo destes anos, presenciei momentos inesquecíveis como o nascimento dos filhos do Conde Meneses, Maria Angélica e João Maria, fruto do casamento com Teresa Teles e Meneses. Foram eles quem mais brincou na minha fresca sombra sem nunca me deixar cair na solidão. Não apenas eles, mas também a pequena Alice, cuja progenitora era empregada de cozinha no Palácio. Alice era uma menina de cabelos loiros, longos, com caracóis perfeitos e tinha olhos tão azuis como o céu limpo numa manhã de verão. Era uma menina muito especial não só pela sua beleza física, mas também pela sua beleza interior pois, acima de tudo, era humilde, trabalhadora e delicada. Infelizmente, teve de crescer cedo para poder ajudar a sua mãe que, por tristes razões, também fazia o papel de pai. O pai de Alice, um elemento da nobreza bracarense cuja identidade ela nunca revelou, não assumiu a sua responsabilidade e tinha-as abandonado e deixado à sua sorte porque não podia mostrar à sociedade que havia tido um filho com uma pobre camponesa. Para continuar a ter um teto para dormir e comida para sobreviver, Alice tinha, então, de ajudar a mãe no que ela precisasse e fazia-o com a maior perfeição e alegria, pensando ela, na sua inocência de criança, que um dia viria a ser tratada como as outras crianças que habitavam o Palácio dos Biscainhos. Porém, demorou anos para que isso acontecesse.
A rotina em casa foi sempre a mesma até ao dia 11 de junho de 1820. O dia começava de madrugada com o canto do galo, sendo as empregadas as primeiras a levantarem-se. A D. Maria era a responsável por ir buscar queijo à Queijaria Central para o pequeno-almoço. O senhor Mário, o proprietário, fazia sempre um preço especial (aqui só entre nós, acho que ele sentia algo pela Maria, mas a dúvida ficou sempre por esclarecer). A Queijaria Central era um lugar muito movimentado e muito conhecido pelos seus maravilhosos queijos caseiros, uma delícia! A D. Julieta estava encarregue de ir comprar o café à Casa Negrita, lugar de onde era impossível sair triste pois o senhor António animava toda a gente com as suas anedotas matinais enquanto a encomenda era preparada. Era um espaço amplo, acolhedor e tinha o melhor perfume da cidade: o aroma do café acabadinho de torrar! Ainda ao passar pala Mercearia Meira e Silva, na esquina da Rua dos Capelistas e do Campo da Vinha, a D. Julieta comprava o pão, frutos secos e as alheiras que o Sr. Conde não dispensava para começar o dia cheio de vitalidade. Com todos estes produtos comprados no comércio local, se fazia o pequeno-almoço e se enchia a enorme mesa das refeições do Palácio.
Depois do pequeno-almoço, Maria Angélica e o seu irmão mais velho, João Maria, iam para a escola, que era ainda uma novidade naqueles tempos. Enquanto isso, o Conde e a Condessa faziam a ronda ao palácio para verificar se todos os deveres estavam a ser realizados e, logo depois, partiam para os mais variados sítios das suas propriedades, orientando as diferentes atividades.
A vida no palácio sempre foi assim, apenas umas "guerras" de vez em quando, mas nada de extraordinário, até que no dia 11 de junho de 1820, Teresa Teles de Meneses, faleceu, aos 40 anos, devido a um vírus que terá apanhado numa das suas viagens a África. A partir deste dia tudo mudou, as crianças ficaram muito abatidas, como era de esperar, mas, ao longo do tempo, foram superando. Pior ficou o conde que não conseguiu lidar com a situação e acabou por cair numa grave depressão, pois o amor que sentia pela sua mulher era inexplicável.
Entre 1820 e 1822, os dias naquela casa foram vividos na maior angústia e tristeza. O conde não saía do quarto onde apenas entrava Camila, a mãe de Alice, empregada da cozinha, para lhe levar as refeições pedidas e as mezinhas para a sua recuperação. Aos poucos, a recuperação do Conde Meneses foi-se tornando visível e Camila passou a ser mais bem tratada. Frequentemente, passava por mim a cantarolar, mais alegre, parecia até uma jovem apaixonada!
Comecei a desconfiar ...
Passados uns tempos, a minha teoria comprovou-se. Camila estava mesmo apaixonada, mas era um amor que nunca seria aprovado, pensava eu, preocupado... O romance era com o Conde Meneses e eu sabia que Camila era correspondida, pois um tulipeiro do meu tamanho (cresci muito ao longo de 300 anos!) conseguia ver através daquela janela olhares meigos e gestos cúmplices que mais ninguém conseguia observar. Com o passar dos meses, o Conde já parecia outro, longe de depressões e outras doenças. Já comia à mesa junto da família e, num desses momentos, perante todo o palácio, assumiu a sua nova paixão.
Os seus familiares não reagiram bem, mas o Conde não deixou que nada afetasse aquela relação que todos se viram obrigados a respeitar e aceitar.
Camila deixou de ser uma simples empregada de cozinha e passou a ser a mulher mais importante daquele Palácio. Alice, como nos seus sonhos de criança, foi finalmente aceite pelo conde (claro, já tinham adivinhado, era ele o pai dela!) e, daí em diante, foi tratada como uma verdadeira princesa tal como os outros filhos.
No jardim do Palácio dos Biscainhos, mesmo junto do meu tronco e debaixo dos meus ramos protetores e cúmplices, houve o mais bonito e romântico pedido de casamento de Braga. Quase chorei! O Conde e Camila casaram seis meses depois.
As rotinas antigas voltaram e esta família ganhou uma nova mãe que se manteve humilde e carinhosa com todos na casa como quando era uma empregada sem esperança num futuro mais risonho.
Querem saber mais histórias? Venham daí, que eu, o Tulipeiro da Virgínia, conto!
- Autores: Maria Inês; Mariana Ferrete e Teresa Veiga
Um tesouro perdido no tempo
Afinal, ao contrário do que diz a sua biografia, Nogueira da Silva, um importante, abastado e conhecido membro da burguesia que viveu na cidade de Braga durante o século XX, teve filhos! A notícia foi divulgada na passada semana e surpreendeu os habitantes bracarenses, dado que estes sempre acreditaram que Nogueira da Silva nunca tinha sido pai, facto que foi sustentado com a doação que fez da sua residência à atual Universidade do Minho, pensando que não havia descendentes para a herdar. A verdade é que, misteriosamente, este importante senhor teria tido algumas relações amorosas confidenciais, das quais nasceram três filhas. Já adolescentes desvendaram este segredo de uma forma aliciante, com um toque de magia, aventura, surpresa e diversão, mas também com a ajuda do destino e da sorte. O modo como esta descoberta foi feita por estas jovens, que inicialmente também desconheciam esta realidade, bem como a razão pela qual nasceu uma forte união entre elas, é-nos contada já de seguida.
Tudo parecia normal. Logo ao nascer do brilho do sol, Miriam, uma rapariga de estatura baixa com cabelos loiros e tímida, mas inteligente e dedicada ao estudo, à leitura e à música, deslocava-se para a sua habitual aula de piano. A sonoridade deste instrumento costumava animá-la mesmo que estivesse a passar por momentos mais sombrios. No início, tinha sido difícil aprender a interagir com os outros alunos, mas a prática começou a atenuar esta adversidade e fez com que ela apreciasse cada vez mais estas aulas, pois sempre que se sentava ao pé do piano mais antigo (o seu preferido) e começava a tocar suaves melodias com as diferentes pecinhas brancas e pretas, viajava divertidamente através dos seus pensamentos. No mesmo dia, Malia, uma jovem ruiva e sardenta que gostava de andar sempre de cabelo preso, deslocava-se de comboio para mais uma aula de equitação. Como era uma pessoa boa a desvendar grandes enigmas, descontraída, alegre e, sobretudo, aventureira, nada lhe dava mais prazer do que sentir uma brisa fresca a atravessar o seu rosto enquanto cavalgava. Era uma sensação de liberdade inexplicável... Se ela pudesse, montava a cavalo o dia todo, mas as aulas de ciências a que tinha de assistir durante a tarde destruíam este desejo diariamente! Contrariamente a estas duas jovens, Melissa, a mais velha de todas, já tinha a sua vida completamente planeada. Sendo uma rapariga alta, forte, de cabelos encaracolados e, por outro lado, desconfiada, costumava prestar atenção a tudo e a todos, facto que a levou a enveredar pelos estudos em investigação criminal.
Seguindo as suas atividades rotineiras, estas três raparigas com personalidades bem diferentes, mal sabiam o que as esperava. Contudo, não faltava muito para descobrirem... Quando chegaram a casa, após mais um dia fatigante, depararam-se com algo peculiar que se encontrava no chão do hall de entrada - era uma carta sem remetente que apontava para um enderenço ao qual elas deveriam comparecer no dia subsequente. Receosas, mas ao mesmo tempo curiosas com esta situação, não hesitaram em cumprir o pedido expresso na carta. E assim foi. Como que por obra da sorte, no dia seguinte, apareceram naquele lugar exatamente à mesma hora e, como seria de esperar, imediatamente se questionaram acerca da identidade de cada uma, bem como do edifício que agora tinham à sua frente: o Museu Nogueira da Silva. Só havia pensamentos e questões no ar do género "Quem és tu?", "Porque é que alguém misterioso quis que viéssemos aqui ter?", "E como é que vamos entrar se nem sequer está nenhuma porta aberta neste museu ou alguém que nos possa receber?!"
Enquanto esperavam que algo mais acontecesse, Miriam, Malia e Melissa começaram a ficar cada vez mais confusas, já que havia muitas perguntas e poucas respostas. Contudo, depois de se terem apresentado umas às outras e de terem estabelecido alguma calma no decorrer daquela estranha situação, as coisas começaram a compor-se, dado que Malia, embora sem querer, descobriu uma forma de todas conseguirem entrar no museu. Essa descoberta foi feita enquanto ela apreciava a estátua de um cavalo montado por Nogueira da Silva que se encontrava no lado esquerdo do edifício. Com a sensação do toque das mãos suaves de Malia, o cavalo ganhou vida e, com voz grave, disse-lhes o seguinte: "O sapato metálico é a chave. Agora, um valor mais alto se alevanta!". Neste momento já nada as impressionava, nem mesmo animais falantes. "Ah! É com isto que temos de entrar!" - exclamou Miriam, apontando para a ferradura, após ter ouvido a voz rouca daquele cavalo.
E entraram. O ruído suave e misterioso provocado pela abertura da porta aumentou o nível de ansiedade interior das três raparigas. Afinal, estavam num local desconhecido e nunca antes frequentado por elas, sem saber o que deveriam fazer e até onde iriam chegar, embarcando numa aventura sem rumo conjugada com uma mistura de sentimentos e emoções incrível.
O espaço era magnífico. À esquerda da porta de entrada estava uma sala repleta de obras artísticas, predominando, em cada uma delas, cores e expressões diferentes. À frente, um corredor escuro que não parecia ter fim e, à direita, encontravam-se umas escadas de mármore tom de pérola e em forma de caracol onde brilhavam pequenos pigmentos, o que evidenciava o elevado valor da pedra de que eram feitas. A casa estava limpa e arejada - não havia teias nas paredes nem tão pouco pó nos móveis de decoração, facto que confirmava que, possivelmente, seria habitada por alguém. Todos estes elementos, até mesmo os mais irrelevantes captados pelos atenciosos olhos de Melissa, pareciam tornar aquele lugar cada vez mais único.
Mas, e agora? O que as esperava? Ao mesmo tempo que procuravam uma razão que explicasse a sua presença naquela casa esperavam, atenciosamente, um outro sinal que as guiasse. Foi então que repararam, por ventura, numa estátua junto às escadas, anteriormente passada despercebida. A mulher retratada era formosa e esbelta, como tudo o que decorava aquele espaço.
Quando se aproximaram da obra de arte, esta rodou automaticamente como se tivesse detetado a sua proximidade, tal como os alarmes acionados num abrir e piscar de olhos com que Melissa estava habituada a lidar. Parecendo, por momentos, ter adquirido vida, apontou com a sua mão pálida para as escadas, dando-lhes a indicação de que tinham de subir. Os seus corações começaram, mais uma vez, a palpitar mais depressa e as pupilas dos seus olhos dilataram. No entanto, apesar de sentirem medo e receio de que alguma coisa de mal pudesse acontecer, em momento algum ponderaram ir embora. Sentiam que deviam estar ali. Que sensação estranha! Assim que acabaram de subir as brilhantes escadas entraram no enigmático segundo piso, onde descobriram tudo.
Dado que queriam conhecer todos os cantos daquela que seria a casa de Nogueira da Silva, começaram por deslocar-se para a divisão de que estavam mais próximas - o escritório, um espaço sinistro e sombrio. As paredes eram escuras e uma delas estava completamente tapada por uma estante repleta de livros. Ali, a única fonte de luz era um candeeiro que se encontrava numa grande secretária, situada no centro daquela divisão. Numa das três paredes livres estava fixado um quadro que lhes chamou à atenção. Era o retrato de um militar que parecia viver economicamente bem, ideia evidenciada não só pelo seu vestuário e modo de estar, mas também pelo que segurava com as suas mãos, grandes e firmes - dois grandes dentes de marfim, provavelmente adquiridos numa ida à caça. Ao atentar nos diversos pormenores do quadro, Miriam reparou que este estava acompanhado de uma descrição que ela leu em voz alta: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Logo que se ouviu a frase na sua voz doce mas sonora, as paredes da casa repetiram as suas palavras num fenómeno de eco intenso.
No decorrer de toda esta situação, eis que algo surreal e extraordinário acontece, quebrando a análise que estava a fazer do quadro. Repentinamente, Nogueira da Silva, representado no quadro segurando os dentes de marfim, perdeu o controlo sobre eles e, como se tivessem ganho vida, alongaram-se para fora do quadro quase como se fossem os tentáculos de um polvo gigante que estaria prestes a aprisioná-las. Melissa, a mais velha e mais ponderada do trio, alertou-as para que fugissem rapidamente para outra divisão e assegurarem as suas vidas. Contudo, Malia, pondo em prática a sua coragem e força, tentou enfrentar os dentes de marfim, mas sem sucesso. A solução seria mesmo fugir. Ao fazerem-no, repararam que existia uma marca no chão do escritório, provavelmente originada pela queda do livro que faltava na prateleira de cima da estante. Deduziram que tinham que o recolocar no sítio e, abrindo as gavetas e revirando o escritório todo, descobriram que, na gaveta da secretária, se encontrava o livro-chave, que encaixaram na estante.
De repente, a parede começa a abrir, produzindo um ruído arrepiante e uma luz muito forte e branca obrigou-as a tapar os olhos. Passando para o outro lado estavam, agora, num corredor frio e escuro, avistando um pequeno ponto de luz no seu fim, tal como se fosse uma luz ao fundo do túnel. Estaria lá a resposta para a sua presença naquela na casa de Nogueira da Silva? Seguindo essa luz, depararam, ao fim de alguns minutos, com uma sala. Este seria talvez o espaço mais imponente que elas tinham visto naquela casa até ao momento - várias cadeiras, mobiliário antigo e aparentemente valioso e, ainda, uma harpa e um piano de cauda antigo.
Fascinadas pela imponência daquela acolhedora sala, decidiram descansar um pouco para recuperar o folgo após o susto aterrador que tinham acabado de experienciar. Mas esta sensação de repouso não durou muito. De repente, o piano que se encontrava no centro da majestosa sala começou a tocar. Felizmente Miriam, que prestava extrema atenção nas aulas de música e que sabia as melodias todas, reconheceu aquele doce som e associou-o rapidamente a uma composição intitulada "As flores do meu jardim", que tinha aprendido a tocar recentemente e cuja letra lhe indicou o destino para onde as três deveriam ir, que agora se tornava bem mais evidente - o jardim.
No entanto, pequenas questões se alevantavam entre as três jovens - "Onde será o jardim?", "Haverá uma porta para entrar?" - foi então que Melissa decidiu pôr à prova os seus dotes de investigadora e reparou que existia, por baixo de um grande cortinado, uma luz diferente daquela que iluminava a sala. Assim, afastou-o e deparou-se com uma enorme parede envidraçada na qual se erguia uma porta com passagem para o jardim, um lugar paradisíaco, repleto de flores de todas as cores e de estátuas que se impunham naquela linda paisagem. No centro encontrava-se uma arca dourada que lhes despertou a atenção. Dirigiram-se para junto dela e repararam que se encontrava fechada por um cadeado formado por um puzzle complexo, para o qual ficaram a olhar pensativas, até que Malia tomou a iniciativa e o conseguiu resolver. Com a expectativa de encontrarem algo de muito valioso, abriram-na sem hesitação, mas dentro dela havia apenas alguns queijos, tecidos, café e um velho e degradado manuscrito no qual constavam três diferentes moradas onde se deveriam deslocar à mesma hora do dia seguinte.
E assim, as três jovens descobriram o maior tesouro de todos: a família. Este é, portanto, o exemplo de como uma aventura inesperada conduzida pela ansiedade e a diversão conseguiu unir três jovens até então desconhecidas entre si!
Quando lá chegaram, olharam perplexas umas para as outras e foi então que descobriram um tesouro perdido no tempo - mas não um como os das histórias, filmes ou lendas; não era ouro ou qualquer pedra preciosa; não era uma grande descoberta arqueológica ou uma coleção de arte que já tinha sido esquecida, mas sim algo ainda melhor... Agora, elas sabiam que afinal eram netas de Nogueira da Silva, informação que lhes tinha sido transmitida na Queijaria Central, na retrosaria Pereira das Violas e na casa A Negrita, os locais indicados no manuscrito. Nogueira da Silva tinha sido cliente assíduo de todos estes estabelecimentos comerciais e, em cada um deles, havia funcionárias atraentes e preclaras... Como se tinha tornado amigo de cada uma delas e dos próprios proprietários das diferentes lojas, tinha-lhes confiado os segredos da sua vida, incluindo o que as três jovens tinham acabado de desvendar com a sua ajuda.
Esta ambígua notícia tinha abalado os corações das três jovens, mas ao mesmo tempo também os aquecia, pois entre elas havia nascido uma amizade confortante... Naquele momento, elas sentiam uma mistura de emoções contraditórias e inexplicáveis. Sem dúvida que era muita coisa para assimilar em tão pouco tempo, mas isso não era o mais importante. Agora, o que realmente interessava era elas terem descoberto o tesouro mais valioso que alguém lhes poderia oferecer: uma família adorável!
Autores: Andreia Oliveira; Beatriz Marques e Diana Machado
Uma memória para ser relembrada
«Finalmente!» era a única coisa que eu conseguia pensar enquanto arrumava a minha mala para regressar a Portugal. As saudades que eu tinha da minha avó já me apertavam o peito, já não estava com ela desde a minha primeira viagem a Portugal. Apesar da idade, recordo-me de tudo como se fosse hoje, o cheiro floral das roupas que secavam perto do jardim de rosas, a melodia da caixa de música que tocava todos os dias a partir das 17h, enquanto tomávamos chá.
Com tanta ansiedade, nem consegui dormir. Sinto-me como uma criança que está a viajar de avião pela primeira vez, sentindo um misto de emoção, euforia e entusiasmo. Após uma noite em branco, cansada, acabei por adormecer, nem dei pelas horas a passar e, quando acordei, para minha surpresa, já estava em Portugal.
Que alegria! lá estava minha avó à minha espera, com aquele grande sorriso encantador, incomparável. Durante a viagem de regresso a casa da minha avó, aproveitei para contar algumas das aventuras no Brasil.
Chegamos. Que nostalgia, tudo continua como antes! Até mesmo os desenhos que eu pintava com a minha avó continuam na parede da entrada.
Ouvi passos a descer rapidamente a escada de mármore. Era Maria Eugénia, uma grande amiga da minha avó. Depois da morte do meu avô, a minha avó passou a morar na casa do comendador Nogueira da Silva, marido de Maria Eugénia, que também havia falecido. Assim, ambas evitavam a solidão da viuvez.
Devido à diferença do fuso horário e como já estava tarde aqui em Portugal, fui-me deitar ao som daquela melodia que a minha avó me costumava pôr para adormecer.
No dia seguinte, abri a janela do meu quarto e.... que maravilha!, que lindo estava o jardim, cheio de vida e cor, parecia um mar de rosas! Avistei minha avó e Maria Eugénia a conversarem, às gargalhadas e decidi descer as escadas marmorizadas e juntar-me a elas. Aproximei-me da mesa decorada com um belo tabuleiro com chávenas de prata. Enquanto tomava o pequeno-almoço, o meu olhar fixou-se no exterior, naquele lugar escondido que me parecia misterioso, com as paredes cheias de heras.
Após o almoço, fui dar uma volta para visitar o centro de Braga, para assim relembrar os velhos tempos de quando eu caminhava todos os dias com a minha avó.
Tudo mudou! Foi a primeira impressão que tive quando olhei ao meu redor e percebi que estava tudo diferente, muitas lojas mudaram de aspeto, outras mudaram de ramo e de proprietário. Apenas três lojas continuavam no mesmo lugar, nada nelas aparentemente mudara desde que viera a Portugal pela primeira vez. A Queijaria Central conservava a mesma montra onde os inúmeros queijos punham uma tonalidade amarelada, a Casa Pereira das Violas exibia vários artigos de retrosaria de diversas cores e a loja de café A Negrita marcava a sua presença emanando um intenso, mas agradável cheiro de café.
Decidi fazer uma breve visita a essas lojas e relembrar os velhos tempos. A minha primeira paragem foi a Queijaria Central. Entrei e decidi explorar o local como fazia quando era criança. Que surpresa! haviam mudado o interior, as paredes estavam cheias de painéis de azulejos representando locais emblemáticos de Braga, o que fez com que a loja parecesse maior, com mais vida. Mas, apesar de o local ter tantos anos e passar de geração em geração, continuava tradicional na qualidade e acolhedor no tratamento. Aproveitei para comer o queijo que eu tanto adorava em criança e depois agradeci ao proprietário pela hospitalidade e segui para a Casa Pereira das Violas.
Reencontrei Carlos Pereira, um grande amigo de infância da minha avó, que hoje é o proprietário da loja. Para meu espanto, disse-me que a casa havia completado 100 anos havia pouco tempo, no dia 3 de janeiro de 2018. A loja permanecia recheada de lãs de várias cores, novelos de linha, fitas, rendas o que lhe conferia um carácter de vitalidade. Aproveitei para conversar com o Sr. Carlos, que é um bom contador de histórias, que acabou por narrar uma aventura com a minha avó. Nessa aventura, ele mencionou que Lena ( a minha avó) e ele tinham por hábito ajudar o pai do Carlos na loja e, em determinados dias, colaboravam também com ele, fazendo solidariedade. Davam, então, a parte interna do pão, o «violo», aos mais necessitados. Com o tempo, a palavra alterou-se e, atualmente, diz-se "miolo". Será essa a origem do nome da loja.
Adorei conhecer a origem do nome da Casa Pereira das Violas, e saber um pouco mais sobre as peripécias da juventude da minha avó e de Carlos Pereira.
Após este bom momento de convívio, dirigi-me à loja A Negrita, uma loja de comércio tradicional que vende café de vários países desde S.Tomé ao Brasil e à Colômbia. Senti-me atraída pelo intenso cheiro a café e perguntei de onde provinha aquele aroma. O proprietário mostrou-se disponível para me acompanhar numa visita guiada ao armazém. No armazém, o cheiro a café era ainda deliciosamente mais intenso. Com toda a amabilidade possível, demonstrou-me como se moía o café e com que critérios se faziam as misturas. Foi então que me lembrei da minha avó e comentei que ela era uma grande amante de café. O senhor acabou por me oferecer umas amostras de café brasileiro para degustar com minha avó num belo fim de tarde.
De repente, olhei para o meu relógio e vi que já era bastante tarde. O tempo tinha passado a voar, despedi-me do proprietário e agradeci-lhe pela gentileza de me mostrar a loja. A caminho do lugar a que chamo casa, fui percebendo como tinha sido reconfortante recordar o que vivenciei quando era pequena. Tinha sido uma tarde de muitas emoções.
Cheguei a casa ao anoitecer, a minha avó estava a tocar harpa na sala e resolvi preparar-lhe o café que tinha trazido da loja. A melodia guiou-me ao seu encontro. Quando cheguei perto dela, fui surpreendida pela harmonia da mistura de sensações que era ouvir a música que ela tocava e observar a imensa beleza do jardim iluminado, visível através da grande parede envidraçada. Não podia estar mais maravilhada, o momento era único: a serena beleza do jardim, o som da harpa e o gosto do café brasileiro.
Espero voltar brevemente a Portugal, criar novas memórias e trazer a minha família ao lugar que me cativa cada vez mais.
Autores: Izabela Conti; Letícia Azevedo e Tânia Dias
O Sonho
Em meados do século passado, ele nasceu,
Um dia, resolveu tentar a sorte,
Trazendo na mala os produtos que a terra amada lhe deu,
De lá, da Serra estrelada, pra Braga ele partiu
Com um negócio nos sonhos que construiu
Vendendo seus queijos, foi assim que cresceu.
Uma cafetaria depois se ergueu
Ali, num espaço estreito, seus sonhos cabiam
Lá estavam os produtos que ele fazia
Trabalhando até tarde conseguiu
Trazer a Serra da Estrela para a loja que abriu;
Queijaria Central a batizou
E, no centro de Braga, famosa ficou
A queijaria que todas as manhãs
seus clientes alimentou;
Na vitrine discreta, queijos diversos
Convidam quem passa
E é só transpor dois degraus
Que logo surge uma área abençoada
Por todas as maravilhas de Braga
Em painéis de azulejos retratadas.
Da Queijaria Central a fama se mantém
Desde que há 70 anos Manuel ...partiu
Partiu, mas o seu legado não se extinguiu.
Autores: Yuri Quinhões e António Gonçalves
Mercearia Meira e Silva
A Aliança
No ano de 1952, o Dr. Felicíssimo do Vale Rego Campos, presidente da Junta da Província do Minho e o comendador António Augusto Nogueira da Silva, fizeram uma aliança com o objetivo de promover o comércio tradicional de Braga, de que era exemplo a Mercearia Meira e Silva, situada na esquina da Rua dos Capelistas com o Campo da Vinha.
A Mercearia Meira e Silva era uma casa com uma oferta única de produtos diversificados e de excelência, dos quais são exemplo o café, o feijão, os frutos secos, as especiarias e a mercearia, produtos de que estes ilustres bracarense eram clientes habituais. Como se tinham tornado amigos dos proprietários e apreciavam a proximidade e delicadeza com que tratavam todos os seus clientes, consideraram que deveriam contribuir para que este estabelecimento comercial fosse mais conhecido dos habitantes de Braga. Eles próprios tinham memórias de infância das idas àquela tradicional e honesta Mercearia que não queriam esquecer.
Numa tarde de verão, reuniram-se na casa do comendador Nogueira da Silva para decidir o que fazer para promover a Mercearia. O escritório do comendador Nogueira da Silva era um espaço pequeno, acolhedor, mas sofisticado, cheio de obras e objetos que documentavam a sua fortuna material. Por toda a casa, havia autênticas relíquias, desde obras de arte e peças de prata a pequenos amuletos de marfim trazidos dos lugares que visitara. Após uma longa conversa, decidiram fazer um acordo com os donos da Mercearia. Este acordo teria dois momentos distintos: primeiro, eles próprios financiariam umas obras para além da aquisição de mais produtos tipicamente portugueses, como as alheiras ou as ameixas de Elvas; num segundo momento, os proprietários da Mercearia comprometiam-se a restituir o investimento, de acordo com os lucros recebidos. Depois foram falar com os donos da Mercearia Meira e Silva e apresentaram a sua proposta que, no exato momento, foi muito bem recebida. Decidiram colocar de imediato o contrato em prática para que as obras e a aquisição de novos produtos não se atrasassem.
Para comemorar este contrato, o Dr. Felicíssimo decidiu realizar uma festa em sua casa, no Palácio dos Biscainhos, para a qual convidou imensas pessoas de renome. O facto é que este foi um de muitos acordos que o Dr. Felicíssimo e o Nogueira da Silva estabeleceram, com o intuito de ajudar a comunidade e não na busca de reconhecimento como muitos poderiam achar. Ambos eram pessoas empenhadas na promoção do bem não só para as pessoas, mas também para a cidade de Braga. Com esta iniciativa de promoção do comércio tradicional, que começava com a Mercearia Meira e Silva, mas que se estenderia gradualmente a outros estabelecimentos, toda a cidade e todos os bracarenses sairiam beneficiados.
O imenso jardim do Palácio dos Biscainhos estava todo florido, com cores chamativas, aromas de Verão e a água das fontes corria límpida. Todos estavam entusiasmadíssimos com a beleza daquele jardim e com a razão de estarem ali.
Dando início à estratégia de promoção da Mercearia, iam oferecer aos convidados presentes uma ceia no palácio, que seria confecionada com muitos dos produtos mais apelativos da mercearia de modo a promovê-los e chamar a atenção dos convivas.
Durante a ceia, apesar de se encontrarem naquela sala imensos convidados, havia um que se destacava, Alberto Soares, um grande republicano que havia sido retirado do seu cargo de diretor da Biblioteca Pública de Braga, facto que o deixou despeitado. Alberto um homem ambicioso e ganancioso que procurava aumentar a sua fortuna, utilizando qualquer meio para tal.
Alberto Soares ouviu a comunicação que o Dr. Felicíssimo e o Comendador Nogueira da Silva fizeram acerca do seu projeto e percebeu que aquele plano poderia render bastante lucro porque a Mercearia iria tornar-se numa loja cheia de potencialidades. Logo concebeu um plano para ser ele a firmar contrato com a Mercearia Meira Silva: teria que fazer com que as pessoas pensassem que o objetivo de Nogueira da Silva e do Dr. Felicíssimo era obter proveito próprio e não beneficiar a comunidade. Para poder concretizar o seu plano, decidiu pôr rumores a circular (sem sujar a sua própria imagem, apenas insinuando e comentando com conhecidos), consciente de que esta mensagem se iria espalhar de boca em boca e que, à medida que o rumor se fosse espalhando, as pessoas iriam acrescentar sempre uma nova "prova" das segundas intenções que teriam levado Nogueira da Silva e Dr. Felicíssimo a procederem à realização deste contrato com a Mercearia.
Na verdade, à medida que o rumor se ia espalhando, ia aumentando de proporções e, naturalmente, acabou por chegar aos ouvidos não só dos donos da Mercearia como também dos promotores da iniciativa. Os donos da Mercearia não queriam acreditar naquilo que ouviam, no entanto, eram tantos os comentários, que eles já se questionavam se não era mesmo possível ser verdade. Perante os factos, os dois beneméritos questionavam-se sobre o que era correto fazer para garantir que a Mercearia nunca ficasse prejudicada com estes rumores. Nogueira da Silva e o Dr. Felicíssimo pretendiam não só provar que o que as pessoas diziam estava errado, mas também descobrir quem era o responsável, de onde tinha surgido tal rumor. Os dois já andavam desconfiados de Alberto Soares desde o dia da ceia, pois este demonstrara um enorme interesse pela Mercearia, interesse que se tornou mais evidente quando Nogueira da Silva e Dr. Felicíssimo apresentaram o contrato que iriam realizar em conjunto com a Mercearia. Decidiram confrontar Alberto Soares e acabaram por descobrir que ele agira assim, movido pela revolta que sentia por ter sido afastado do cargo que exercia.
Como homens honestos e magnânimos que eram, decidiram dar uma nova oportunidade a Alberto Soares para se redimir dos seus atos, passando este a ter que trabalhar na Mercearia Meira e Silva sem qualquer benefício, tendo que ajudar em tudo o que fosse necessário, tanto na Mercearia como no Palácio dos Biscainhos ou na casa de Nogueira da Silva, até que a sua dívida para com eles lhe fosse perdoada.
Os bracarenses podem estar gratos a estes dois ilustres cavalheiros . Graças a eles, a Mercearia Meira e Silva e outros comércios e instituições, com o benefício destes beneméritos, continuaram a proporcionar aos cidadãos produtos e serviços de qualidade.
Autores: Alice Moraes; Patrícia Melo; Paula Rodrigues e Vera Gomes
UM AMOR PROIBIDO, PENSAVA EU
Após 300 primaveras, sou hoje parte da madeira comum destinada a acender as vossas lareiras ao longo do inverno. E antes que caia no esquecimento das gerações antigas e nem venha sequer a ser conhecido pelos novos vou contar-vos uma das histórias que presenciei ao longo da minha vida.
Surgi do nada, sem saber como nem porquê, provavelmente por obra do vento cheguei até aqui, a um lugar lindo conhecido, antigamente, por Palácio dos Biscainhos. Posso dizer que, desde que me conheço, sempre fui um menino muito sociável e acariciado por toda a gente, tanto pelos humanos como pelos seres idênticos a mim, as outras árvores e plantas deste jardim maravilhoso: japoneiras, magnólias, castanheiros, buchos... Enquanto criança, fui tratado da melhor maneira possível, tive todos os cuidados que todos ainda na sua fase dependente precisam de ter. Acho que todos ficaram rendidos à beleza das minhas folhas e às minhas flores em forma de tulipa. Por isso, sou apelidado de Tulipeiro da Virgínia. Foi fácil habituar-me à ideia de que a minha vida seria aqui, não podia pedir um lar melhor e, acreditem, apesar da minha felicidade constante, questionei-me muitas vezes sobre o porquê de ter vindo aqui parar. Afinal de contas, nada tinha feito para isto.
Ao longo destes anos, presenciei momentos inesquecíveis como o nascimento dos filhos do Conde Meneses, Maria Angélica e João Maria, fruto do casamento com Teresa Teles e Meneses. Foram eles quem mais brincou na minha fresca sombra sem nunca me deixar cair na solidão. Não apenas eles, mas também a pequena Alice, cuja progenitora era empregada de cozinha no Palácio. Alice era uma menina de cabelos loiros, longos, com caracóis perfeitos e tinha olhos tão azuis como o céu limpo numa manhã de verão. Era uma menina muito especial não só pela sua beleza física, mas também pela sua beleza interior pois, acima de tudo, era humilde, trabalhadora e delicada. Infelizmente, teve de crescer cedo para poder ajudar a sua mãe que, por tristes razões, também fazia o papel de pai. O pai de Alice, um elemento da nobreza bracarense cuja identidade ela nunca revelou, não assumiu a sua responsabilidade e tinha-as abandonado e deixado à sua sorte porque não podia mostrar à sociedade que havia tido um filho com uma pobre camponesa. Para continuar a ter um teto para dormir e comida para sobreviver, Alice tinha, então, de ajudar a mãe no que ela precisasse e fazia-o com a maior perfeição e alegria, pensando ela, na sua inocência de criança, que um dia viria a ser tratada como as outras crianças que habitavam o Palácio dos Biscainhos. Porém, demorou anos para que isso acontecesse.
A rotina em casa foi sempre a mesma até ao dia 11 de junho de 1820. O dia começava de madrugada com o canto do galo, sendo as empregadas as primeiras a levantarem-se. A D. Maria era a responsável por ir buscar queijo à Queijaria Central para o pequeno-almoço. O senhor Mário, o proprietário, fazia sempre um preço especial (aqui só entre nós, acho que ele sentia algo pela Maria, mas a dúvida ficou sempre por esclarecer). A Queijaria Central era um lugar muito movimentado e muito conhecido pelos seus maravilhosos queijos caseiros, uma delícia! A D. Julieta estava encarregue de ir comprar o café à Casa Negrita, lugar de onde era impossível sair triste pois o senhor António animava toda a gente com as suas anedotas matinais enquanto a encomenda era preparada. Era um espaço amplo, acolhedor e tinha o melhor perfume da cidade: o aroma do café acabadinho de torrar! Ainda ao passar pala Mercearia Meira e Silva, na esquina da Rua dos Capelistas e do Campo da Vinha, a D. Julieta comprava o pão, frutos secos e as alheiras que o Sr. Conde não dispensava para começar o dia cheio de vitalidade. Com todos estes produtos comprados no comércio local, se fazia o pequeno-almoço e se enchia a enorme mesa das refeições do Palácio.
Depois do pequeno-almoço, Maria Angélica e o seu irmão mais velho, João Maria, iam para a escola, que era ainda uma novidade naqueles tempos. Enquanto isso, o Conde e a Condessa faziam a ronda ao palácio para verificar se todos os deveres estavam a ser realizados e, logo depois, partiam para os mais variados sítios das suas propriedades, orientando as diferentes atividades.
A vida no palácio sempre foi assim, apenas umas "guerras" de vez em quando, mas nada de extraordinário, até que no dia 11 de junho de 1820, Teresa Teles de Meneses, faleceu, aos 40 anos, devido a um vírus que terá apanhado numa das suas viagens a África. A partir deste dia tudo mudou, as crianças ficaram muito abatidas, como era de esperar, mas, ao longo do tempo, foram superando. Pior ficou o conde que não conseguiu lidar com a situação e acabou por cair numa grave depressão, pois o amor que sentia pela sua mulher era inexplicável.
Entre 1820 e 1822, os dias naquela casa foram vividos na maior angústia e tristeza. O conde não saía do quarto onde apenas entrava Camila, a mãe de Alice, empregada da cozinha, para lhe levar as refeições pedidas e as mezinhas para a sua recuperação. Aos poucos, a recuperação do Conde Meneses foi-se tornando visível e Camila passou a ser mais bem tratada. Frequentemente, passava por mim a cantarolar, mais alegre, parecia até uma jovem apaixonada!
Comecei a desconfiar ...
Passados uns tempos, a minha teoria comprovou-se. Camila estava mesmo apaixonada, mas era um amor que nunca seria aprovado, pensava eu, preocupado... O romance era com o Conde Meneses e eu sabia que Camila era correspondida, pois um tulipeiro do meu tamanho (cresci muito ao longo de 300 anos!) conseguia ver através daquela janela olhares meigos e gestos cúmplices que mais ninguém conseguia observar. Com o passar dos meses, o Conde já parecia outro, longe de depressões e outras doenças. Já comia à mesa junto da família e, num desses momentos, perante todo o palácio, assumiu a sua nova paixão.
Os seus familiares não reagiram bem, mas o Conde não deixou que nada afetasse aquela relação que todos se viram obrigados a respeitar e aceitar.
Camila deixou de ser uma simples empregada de cozinha e passou a ser a mulher mais importante daquele Palácio. Alice, como nos seus sonhos de criança, foi finalmente aceite pelo conde (claro, já tinham adivinhado, era ele o pai dela!) e, daí em diante, foi tratada como uma verdadeira princesa tal como os outros filhos.
No jardim do Palácio dos Biscainhos, mesmo junto do meu tronco e debaixo dos meus ramos protetores e cúmplices, houve o mais bonito e romântico pedido de casamento de Braga. Quase chorei! O Conde e Camila casaram seis meses depois.
As rotinas antigas voltaram e esta família ganhou uma nova mãe que se manteve humilde e carinhosa com todos na casa como quando era uma empregada sem esperança num futuro mais risonho.
Querem saber mais histórias? Venham daí, que eu, o Tulipeiro da Virgínia, conto!
Autores: Maria Inês; Mariana Ferrete e Teresa Veiga
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A Negrita
Um tesouro perdido no tempo
Afinal, ao contrário do que diz a sua biografia, Nogueira da Silva, um importante, abastado e conhecido membro da burguesia que viveu na cidade de Braga durante o século XX, teve filhos! A notícia foi divulgada na passada semana e surpreendeu os habitantes bracarenses, dado que estes sempre acreditaram que Nogueira da Silva nunca tinha sido pai, facto que foi sustentado com a doação que fez da sua residência à atual Universidade do Minho, pensando que não havia descendentes para a herdar. A verdade é que, misteriosamente, este importante senhor teria tido algumas relações amorosas confidenciais, das quais nasceram três filhas. Já adolescentes desvendaram este segredo de uma forma aliciante, com um toque de magia, aventura, surpresa e diversão, mas também com a ajuda do destino e da sorte. O modo como esta descoberta foi feita por estas jovens, que inicialmente também desconheciam esta realidade, bem como a razão pela qual nasceu uma forte união entre elas, é-nos contada já de seguida.
Tudo parecia normal. Logo ao nascer do brilho do sol, Miriam, uma rapariga de estatura baixa com cabelos loiros e tímida, mas inteligente e dedicada ao estudo, à leitura e à música, deslocava-se para a sua habitual aula de piano. A sonoridade deste instrumento costumava animá-la mesmo que estivesse a passar por momentos mais sombrios. No início, tinha sido difícil aprender a interagir com os outros alunos, mas a prática começou a atenuar esta adversidade e fez com que ela apreciasse cada vez mais estas aulas, pois sempre que se sentava ao pé do piano mais antigo (o seu preferido) e começava a tocar suaves melodias com as diferentes pecinhas brancas e pretas, viajava divertidamente através dos seus pensamentos. No mesmo dia, Malia, uma jovem ruiva e sardenta que gostava de andar sempre de cabelo preso, deslocava-se de comboio para mais uma aula de equitação. Como era uma pessoa boa a desvendar grandes enigmas, descontraída, alegre e, sobretudo, aventureira, nada lhe dava mais prazer do que sentir uma brisa fresca a atravessar o seu rosto enquanto cavalgava. Era uma sensação de liberdade inexplicável... Se ela pudesse, montava a cavalo o dia todo, mas as aulas de ciências a que tinha de assistir durante a tarde destruíam este desejo diariamente! Contrariamente a estas duas jovens, Melissa, a mais velha de todas, já tinha a sua vida completamente planeada. Sendo uma rapariga alta, forte, de cabelos encaracolados e, por outro lado, desconfiada, costumava prestar atenção a tudo e a todos, facto que a levou a enveredar pelos estudos em investigação criminal.
Seguindo as suas atividades rotineiras, estas três raparigas com personalidades bem diferentes, mal sabiam o que as esperava. Contudo, não faltava muito para descobrirem... Quando chegaram a casa, após mais um dia fatigante, depararam-se com algo peculiar que se encontrava no chão do hall de entrada - era uma carta sem remetente que apontava para um enderenço ao qual elas deveriam comparecer no dia subsequente. Receosas, mas ao mesmo tempo curiosas com esta situação, não hesitaram em cumprir o pedido expresso na carta. E assim foi. Como que por obra da sorte, no dia seguinte, apareceram naquele lugar exatamente à mesma hora e, como seria de esperar, imediatamente se questionaram acerca da identidade de cada uma, bem como do edifício que agora tinham à sua frente: o Museu Nogueira da Silva. Só havia pensamentos e questões no ar do género "Quem és tu?", "Porque é que alguém misterioso quis que viéssemos aqui ter?", "E como é que vamos entrar se nem sequer está nenhuma porta aberta neste museu ou alguém que nos possa receber?!"
Enquanto esperavam que algo mais acontecesse, Miriam, Malia e Melissa começaram a ficar cada vez mais confusas, já que havia muitas perguntas e poucas respostas. Contudo, depois de se terem apresentado umas às outras e de terem estabelecido alguma calma no decorrer daquela estranha situação, as coisas começaram a compor-se, dado que Malia, embora sem querer, descobriu uma forma de todas conseguirem entrar no museu. Essa descoberta foi feita enquanto ela apreciava a estátua de um cavalo montado por Nogueira da Silva que se encontrava no lado esquerdo do edifício. Com a sensação do toque das mãos suaves de Malia, o cavalo ganhou vida e, com voz grave, disse-lhes o seguinte: "O sapato metálico é a chave. Agora, um valor mais alto se alevanta!". Neste momento já nada as impressionava, nem mesmo animais falantes. "Ah! É com isto que temos de entrar!" - exclamou Miriam, apontando para a ferradura, após ter ouvido a voz rouca daquele cavalo.
E entraram. O ruído suave e misterioso provocado pela abertura da porta aumentou o nível de ansiedade interior das três raparigas. Afinal, estavam num local desconhecido e nunca antes frequentado por elas, sem saber o que deveriam fazer e até onde iriam chegar, embarcando numa aventura sem rumo conjugada com uma mistura de sentimentos e emoções incrível.
O espaço era magnífico. À esquerda da porta de entrada estava uma sala repleta de obras artísticas, predominando, em cada uma delas, cores e expressões diferentes. À frente, um corredor escuro que não parecia ter fim e, à direita, encontravam-se umas escadas de mármore tom de pérola e em forma de caracol onde brilhavam pequenos pigmentos, o que evidenciava o elevado valor da pedra de que eram feitas. A casa estava limpa e arejada - não havia teias nas paredes nem tão pouco pó nos móveis de decoração, facto que confirmava que, possivelmente, seria habitada por alguém. Todos estes elementos, até mesmo os mais irrelevantes captados pelos atenciosos olhos de Melissa, pareciam tornar aquele lugar cada vez mais único.
Mas, e agora? O que as esperava? Ao mesmo tempo que procuravam uma razão que explicasse a sua presença naquela casa esperavam, atenciosamente, um outro sinal que as guiasse. Foi então que repararam, por ventura, numa estátua junto às escadas, anteriormente passada despercebida. A mulher que retratava era formosa e esbelta, como tudo o que decorava aquele espaço.
Quando se aproximaram da obra de arte, esta rodou automaticamente como se tivesse detetado a sua proximidade, tal como os alarmes acionados num abrir e piscar de olhos com que Melissa estava habituada a lidar. Parecendo, por momentos, ter adquirido vida, apontou com a sua mão pálida para as escadas, dando-lhes a indicação de que tinham de subir. Os seus corações começaram, mais uma vez, a palpitar mais depressa e as pupilas dos seus olhos dilataram. No entanto, apesar de sentirem medo e receio de que alguma coisa de mal pudesse acontecer, em momento algum ponderaram ir embora. Sentiam que deviam estar ali. Que sensação estranha! Assim que acabaram de subir as brilhantes escadas entraram no enigmático segundo piso, onde descobriram tudo.
Dado que queriam conhecer todos os cantos daquela que seria a casa de Nogueira da Silva, começaram por deslocar-se para a divisão de que estavam mais próximas - o escritório, um espaço sinistro e sombrio. As paredes eram escuras e uma delas estava completamente tapada por uma estante repleta de livros. Ali, a única fonte de luz era um candeeiro que se encontrava numa grande secretária, situada no centro daquela divisão. Numa das três paredes livres estava fixado um quadro que lhes chamou à atenção. Era o retrato de um militar que parecia viver economicamente bem, ideia evidenciada não só pelo seu vestuário e modo de estar, mas também pelo que segurava com as suas mãos, grandes e firmes - dois grandes dentes de marfim, provavelmente adquiridos numa ida à caça. Ao atentar nos diversos pormenores do quadro, Miriam reparou que este estava acompanhado de uma descrição que ela leu em voz alta: Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Logo que se ouviu a frase na sua voz doce mas sonora, as paredes da casa repetiram as suas palavras num fenómeno de eco intenso.
No decorrer de toda esta situação, eis que algo surreal e extraordinário acontece, quebrando a análise que estava a fazer do quadro. Repentinamente, Nogueira da Silva, representado no quadro segurando os dentes de marfim, perdeu o controlo sobre eles e, como se tivessem ganho vida, alongaram-se para fora do quadro quase como se fossem os tentáculos de um polvo gigante que estaria prestes a aprisioná-las. Melissa, a mais velha e mais ponderada do trio, alertou-as para que fugissem rapidamente para outra divisão e assegurarem as suas vidas. Contudo, Malia, pondo em prática a sua coragem e força, tentou enfrentar os dentes de marfim, mas sem sucesso. A solução seria mesmo fugir. Ao fazerem-no, repararam que existia uma marca no chão do escritório, provavelmente originada pela queda do livro que faltava na prateleira de cima da estante. Deduziram que tinham que o recolocar no sítio e, abrindo as gavetas e revirando o escritório todo, descobriram que, na gaveta da secretária, se encontrava o livro-chave, que encaixaram na estante.
De repente, a parede começa a abrir, produzindo um ruído arrepiante e uma luz muito forte e branca obrigou-as a tapar os olhos. Passando para o outro lado estavam, agora, num corredor frio e escuro, avistando um pequeno ponto de luz no seu fim, tal como se fosse uma luz ao fundo do túnel. Estaria lá a resposta para a sua presença naquela na casa de Nogueira da Silva? Seguindo essa luz, depararam, ao fim de alguns minutos, com uma sala. Este seria talvez o espaço mais imponente que elas tinham visto naquela casa até ao momento - várias cadeiras, mobiliário antigo e aparentemente valioso e, ainda, uma harpa e um piano de cauda antigo.
Fascinadas pela imponência daquela acolhedora sala, decidiram descansar um pouco para recuperar o folgo após o susto aterrador que tinham acabado de experienciar. Mas esta sensação de repouso não durou muito. De repente, o piano que se encontrava no centro da majestosa sala começou a tocar. Felizmente Miriam, que prestava extrema atenção nas aulas de música e que sabia as melodias todas, reconheceu aquele doce som e associou-o rapidamente a uma composição intitulada "As flores do meu jardim", que tinha aprendido a tocar recentemente e cuja letra lhe indicou o destino para onde as três deveriam ir, que agora se tornava bem mais evidente - o jardim.
No entanto, pequenas questões se alevantavam entre as três jovens - "Onde será o jardim?", "Haverá uma porta para entrar?" - foi então que Melissa decidiu pôr à prova os seus dotes de investigadora e reparou que existia, por baixo de um grande cortinado, uma luz diferente daquela que iluminava a sala. Assim, afastou-o e deparou-se com uma enorme parede envidraçada na qual se erguia uma porta com passagem para o jardim, um lugar paradisíaco, repleto de flores de todas as cores e de estátuas que se impunham naquela linda paisagem. No centro encontrava-se uma arca dourada que lhes despertou a atenção. Dirigiram-se para junto dela e repararam que se encontrava fechada por um cadeado formado por um puzzle complexo, para o qual ficaram a olhar pensativas, até que Malia tomou a iniciativa e o conseguiu resolver. Com a expectativa de encontrarem algo de muito valioso, abriram-na sem hesitação, mas dentro dela havia apenas alguns queijos, tecidos, café e um velho e degradado manuscrito no qual constavam três diferentes moradas onde se deveriam deslocar à mesma hora do dia seguinte.
E assim, as três jovens descobriram o maior tesouro de todos: a família. Este é, portanto, o exemplo de como uma aventura inesperada conduzida pela ansiedade e a diversão conseguiu unir três jovens até então desconhecidas entre si!
Quando lá chegaram, olharam perplexas umas para as outras e foi então que descobriram um tesouro perdido no tempo - mas não um como os das histórias, filmes ou lendas; não era ouro ou qualquer pedra preciosa; não era uma grande descoberta arqueológica ou uma coleção de arte que já tinha sido esquecida, mas sim algo ainda melhor... Agora, elas sabiam que afinal eram netas de Nogueira da Silva, informação que lhes tinha sido transmitida na Queijaria Central, na retrosaria Pereira das Violas e na casa A Negrita, os locais indicados no manuscrito. Nogueira da Silva tinha sido cliente assíduo de todos estes estabelecimentos comerciais e, em cada um deles, havia funcionárias atraentes e preclaras... Como se tinha tornado amigo de cada uma delas e dos próprios proprietários das diferentes lojas, tinha-lhes confiado os segredos da sua vida, incluindo o que as três jovens tinham acabado de desvendar com a sua ajuda.
Esta ambígua notícia tinha abalado os corações das três jovens, mas ao mesmo tempo também os aquecia, pois entre elas havia nascido uma amizade confortante... Naquele momento, elas sentiam uma mistura de emoções contraditórias e inexplicáveis. Sem dúvida que era muita coisa para assimilar em tão pouco tempo, mas isso não era o mais importante. Agora, o que realmente interessava era elas terem descoberto o tesouro mais valioso que alguém lhes poderia oferecer: uma família adorável!
Autores: Andreia Oliveira; Beatriz Marques e Diana Machado
Um amor improvável
Num dia quente do verão de 1926, um jovem chamado António Nogueira da Silva estava na casa, em Braga, imóvel que tinha herdado e integrava a fortuna do pai. Era uma casa enorme, cheia de quartos, mobília cara e, o mais importante e maravilhoso, o jardim ao qual o pai dava o nome de "Jardim da Esperança" porque era ali que, muitas vezes, ficava longo tempo a pensar nos seus sonhos. Um desses sonhos era o de ter uma casa que oferecesse aos bracarenses a possibilidade de comprar bons cafés de várias partes do mundo. Um dia, estava Nogueira da Silva sentado na sua poltrona, baloiçando-se para a frente e para trás, quando, de repente, lhe surge uma ideia.
- Vou concretizar o sonho que o meu querido pai tinha de abrir uma casa de venda de café, disse para si mesmo.
Começou por visitar alguns lugares da cidade de Braga onde achava que o seu negócio poderia ter mais sucesso. Após uma longa e intensa procura, encontrou um pequeno espaço ideal para começar o negócio - era um espaço acolhedor e simples. Como precisava de um nome, Nogueira da Silva pediu ajuda ao seu fiel criado Adolfo:
- Adolfo, preciso da tua ajuda.
- Diga, Senhor Comendador.
- Que nome devo dar ao meu negócio?
- Sendo que a maior parte do café é oriundo de África, penso que lhe devia dar o nome de A Negrita, senhor.
E assim ficou. Começava ali um negócio que iria dar que falar não só na cidade de Braga, mas também por este Portugal fora e, quem sabe, chegar aos quatro cantos do mundo.
Em menos de dois dias a cidade inteira de Braga falava do novo negócio do importante e conhecido Nogueira da Silva.
Para que a qualidade do seu café fosse superior à dos outros, Nogueira da Silva decidiu partir em busca do melhor café. Já ouvira falar do mítico café da cidade de Moka produzido por portugueses lá emigrados. Após uma cansativa viagem até Moka, situada nas margens do Mar Vermelho, no Iémen, Nogueira da Silva pediu indicações de onde poderia encontrar os melhores produtores de café da região e disseram-lhe que o melhor produtor de café da cidade era o Sr. Ribeiro, um imigrante português. Depois de algumas horas de pesquisa nesta região completamente desconhecida, encontrou os campos de café que, supostamente, eram os melhores. Encontrou-se com o Sr. Ribeiro que o levou numa visita guiada pelas suas plantações de café; contudo, o que lhe chamou mais a atenção não foi o próprio café, mas sim uma jovem trabalhadora, formosa, com um sorriso encantador que o deixou sem palavras.
- Desculpe, Sr. Ribeiro, sabe-me dizer quem é aquela bela jovem que ali está?, perguntou Nogueira da Silva.
- Claro! Aquela jovem trabalha para mim; ela e toda a sua família são meus empregados.
- E como se chama? "
- Maria Eugenia é o seu nome.
Nogueira da Silva ficou tão encantado com ela que, depois de fechar negócio com o Sr. Ribeiro, foi tentar a sua sorte.
- Olá, o meu nome é António Nogueira da Silva; posso fazer-lhe uma pergunta, minha bela jovem?
Corada, ela respondeu:
- Sim, faça favor.
- O que faz uma tão bela rapariga como vós aqui a trabalhar nestes campos?
- Eu venho de uma família pobre e é assim que ganho dinheiro para manter a minha família... mas, por que pergunta?.
- Vim aqui fazer negócio com o Sr Ribeiro e não pude deixar de reparar na vossa rara beleza ... É estranho ver uma rapariga tão bonita como vós a trabalhar nos campos.
Ela ficou ainda mais corada e respondeu baixinho.
- O meu turno acabou, tenho que ir...- murmurou ela.
Nogueira da Silva, não acreditando no motivo, seguiu-a até uma casa em madeira, pequena, humilde e, aparentemente, pouco confortável. Já se fazia tarde e decidiu voltar para a casa onde iria estar hospedado durante cinco dias. Nessa mesma noite, Nogueira da Silva pediu ao seu mais fiel criado que preparasse umas prendas para dar à sua amada e, durante dias, deixou vários presentes em casa de Maria Eugénia. Uma dessas prendas ia acompanhada de um bilhete que continha um pequeno excerto de um poema de amor escrito por Camões, talvez o maior poeta português.
" Amor é fogo que arde sem se ver;É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade." Vem ter comigo ao porto, perto de tua casa. Ass: Nogueira da Silva Maria Eugénia aceitou o seu pedido e durante quatro noites saiu de casa às escondidas e foi ter com Nogueira da Silva. Assim nasceu um amor improvável, que estava prestes a acabar pois chegara o último dia de Nogueira da Silva em Moka. Contudo, ele não estava disposto a perder o amor da sua vida e, por isso, foi até à casa de Maria Eugénia e disse-lhe: - Maria, vem comigo para Portugal. Lá, podemos viver juntos para sempre. Tenho uma casa que vais adorar com um lindo jardim que não te deixará ter saudades deste local. - Mas, o que vão pensar as pessoas se virem uma mulher do povo como eu com um homem da tua classe?- perguntou ela com lágrimas nos olhos. - Eu não quero saber do que as pessoas vão dizer ou do que elas vão pensar! A única pessoa com quem me importo neste momento és tu, não quero saber se o nosso amor vai causar comentários ou não! Vem comigo e eu prometo que te faço feliz!Maria Eugénia, comovida, desceu as escadas a correr e saltou para os braços de Nogueira da Silva. Partiram de imediato, apenas com a roupa que tinham no corpo.Já em Portugal, casaram. Nogueira da Silva tinha conseguido em Moka o melhor café para vender na casa A Negrita que viria a tornar-se uma das maiores casas de venda de café da cidade de Braga, uma casa simples onde os bracarenses iam comprar o melhor café; além disso, tinha concretizado o sonho do seu falecido pai e ainda tinha encontrado o amor da sua vida que aceitou viver consigo para toda a eternidade naquela casa, com aquele jardim magnífico. Nogueira da Silva tivera razão quando lhe falara do jardim: era, na verdade, um espaço magnífico onde os dois gostavam de se sentar ao entardecer e desfrutar do silêncio perfumado pela abundância de rosas. Depois de alimentar a esperança de Nogueira da Silva em concretizar o sonho de seu pai, o jardim passou a ser testemunha da sua felicidade ao lado de Maria Eugénia.Autores: João Teles; Pedro Cunha e Pedro Vinhas
UM AMOR PROIBIDO, PENSAVA EU
Após 300 primaveras, sou hoje parte da madeira comum destinada a acender as vossas lareiras ao longo do inverno. E antes que caia no esquecimento das gerações antigas e nem venha sequer a ser conhecido pelos novos vou contar-vos uma das histórias que presenciei ao longo da minha vida.
Surgi do nada, sem saber como nem porquê, provavelmente por obra do vento cheguei até aqui, a um lugar lindo conhecido, antigamente, por Palácio dos Biscainhos. Posso dizer que, desde que me conheço, sempre fui um menino muito sociável e acariciado por toda a gente, tanto pelos humanos como pelos seres idênticos a mim, as outras árvores e plantas deste jardim maravilhoso: japoneiras, magnólias, castanheiros, buchos... Enquanto criança, fui tratado da melhor maneira possível, tive todos os cuidados que todos ainda na sua fase dependente precisam de ter. Acho que todos ficaram rendidos à beleza das minhas folhas e às minhas flores em forma de tulipa. Por isso, sou apelidado de Tulipeiro da Virgínia. Foi fácil habituar-me à ideia de que a minha vida seria aqui, não podia pedir um lar melhor e, acreditem, apesar da minha felicidade constante, questionei-me muitas vezes sobre o porquê de ter vindo aqui parar. Afinal de contas, nada tinha feito para isto.
Ao longo destes anos, presenciei momentos inesquecíveis como o nascimento dos filhos do Conde Meneses, Maria Angélica e João Maria, fruto do casamento com Teresa Teles e Meneses. Foram eles quem mais brincou na minha fresca sombra sem nunca me deixar cair na solidão. Não apenas eles, mas também a pequena Alice, cuja progenitora era empregada de cozinha no Palácio. Alice era uma menina de cabelos loiros, longos, com caracóis perfeitos e tinha olhos tão azuis como o céu limpo numa manhã de verão. Era uma menina muito especial não só pela sua beleza física, mas também pela sua beleza interior pois, acima de tudo, era humilde, trabalhadora e delicada. Infelizmente, teve de crescer cedo para poder ajudar a sua mãe que, por tristes razões, também fazia o papel de pai. O pai de Alice, um elemento da nobreza bracarense cuja identidade ela nunca revelou, não assumiu a sua responsabilidade e tinha-as abandonado e deixado à sua sorte porque não podia mostrar à sociedade que havia tido um filho com uma pobre camponesa. Para continuar a ter um teto para dormir e comida para sobreviver, Alice tinha, então, de ajudar a mãe no que ela precisasse e fazia-o com a maior perfeição e alegria, pensando ela, na sua inocência de criança, que um dia viria a ser tratada como as outras crianças que habitavam o Palácio dos Biscainhos. Porém, demorou anos para que isso acontecesse.
A rotina em casa foi sempre a mesma até ao dia 11 de junho de 1820. O dia começava de madrugada com o canto do galo, sendo as empregadas as primeiras a levantarem-se. A D. Maria era a responsável por ir buscar queijo à Queijaria Central para o pequeno-almoço. O senhor Mário, o proprietário, fazia sempre um preço especial (aqui só entre nós, acho que ele sentia algo pela Maria, mas a dúvida ficou sempre por esclarecer). A Queijaria Central era um lugar muito movimentado e muito conhecido pelos seus maravilhosos queijos caseiros, uma delícia! A D. Julieta estava encarregue de ir comprar o café à Casa Negrita, lugar de onde era impossível sair triste pois o senhor António animava toda a gente com as suas anedotas matinais enquanto a encomenda era preparada. Era um espaço amplo, acolhedor e tinha o melhor perfume da cidade: o aroma do café acabadinho de torrar! Ainda ao passar pala Mercearia Meira e Silva, na esquina da Rua dos Capelistas e do Campo da Vinha, a D. Julieta comprava o pão, frutos secos e as alheiras que o Sr. Conde não dispensava para começar o dia cheio de vitalidade. Com todos estes produtos comprados no comércio local, se fazia o pequeno-almoço e se enchia a enorme mesa das refeições do Palácio.
Depois do pequeno-almoço, Maria Angélica e o seu irmão mais velho, João Maria, iam para a escola, que era ainda uma novidade naqueles tempos. Enquanto isso, o Conde e a Condessa faziam a ronda ao palácio para verificar se todos os deveres estavam a ser realizados e, logo depois, partiam para os mais variados sítios das suas propriedades, orientando as diferentes atividades.
A vida no palácio sempre foi assim, apenas umas "guerras" de vez em quando, mas nada de extraordinário, até que no dia 11 de junho de 1820, Teresa Teles de Meneses, faleceu, aos 40 anos, devido a um vírus que terá apanhado numa das suas viagens a África. A partir deste dia tudo mudou, as crianças ficaram muito abatidas, como era de esperar, mas, ao longo do tempo, foram superando. Pior ficou o conde que não conseguiu lidar com a situação e acabou por cair numa grave depressão, pois o amor que sentia pela sua mulher era inexplicável.
Entre 1820 e 1822, os dias naquela casa foram vividos na maior angústia e tristeza. O conde não saía do quarto onde apenas entrava Camila, a mãe de Alice, empregada da cozinha, para lhe levar as refeições pedidas e as mezinhas para a sua recuperação. Aos poucos, a recuperação do Conde Meneses foi-se tornando visível e Camila passou a ser mais bem tratada. Frequentemente, passava por mim a cantarolar, mais alegre, parecia até uma jovem apaixonada!
Comecei a desconfiar ...
Passados uns tempos, a minha teoria comprovou-se. Camila estava mesmo apaixonada, mas era um amor que nunca seria aprovado, pensava eu, preocupado... O romance era com o Conde Meneses e eu sabia que Camila era correspondida, pois um tulipeiro do meu tamanho (cresci muito ao longo de 300 anos!) conseguia ver através daquela janela olhares meigos e gestos cúmplices que mais ninguém conseguia observar. Com o passar dos meses, o Conde já parecia outro, longe de depressões e outras doenças. Já comia à mesa junto da família e, num desses momentos, perante todo o palácio, assumiu a sua nova paixão.
Os seus familiares não reagiram bem, mas o Conde não deixou que nada afetasse aquela relação que todos se viram obrigados a respeitar e aceitar.
Camila deixou de ser uma simples empregada de cozinha e passou a ser a mulher mais importante daquele Palácio. Alice, como nos seus sonhos de criança, foi finalmente aceite pelo conde (claro, já tinham adivinhado, era ele o pai dela!) e, daí em diante, foi tratada como uma verdadeira princesa tal como os outros filhos.
No jardim do Palácio dos Biscainhos, mesmo junto do meu tronco e debaixo dos meus ramos protetores e cúmplices, houve o mais bonito e romântico pedido de casamento de Braga. Quase chorei! O Conde e Camila casaram seis meses depois.
As rotinas antigas voltaram e esta família ganhou uma nova mãe que se manteve humilde e carinhosa com todos na casa como quando era uma empregada sem esperança num futuro mais risonho.
Querem saber mais histórias? Venham daí, que eu, o Tulipeiro da Virgínia, conto!
Autores: Maria Inês, Mariana Ferrete e Teresa Veiga
Uma memória para ser relembrada
«Finalmente!» era a única coisa que eu conseguia pensar enquanto arrumava a minha mala para regressar a Portugal. As saudades que eu tinha da minha avó já me apertavam o peito, já não estava com ela desde a minha primeira viagem a Portugal. Apesar da idade, recordo-me de tudo como se fosse hoje, o cheiro floral das roupas que secavam perto do jardim de rosas, a melodia da caixa de música que tocava todos os dias a partir das 17h, enquanto tomávamos chá.
Com tanta ansiedade, nem consegui dormir. Sinto-me como uma criança que está a viajar de avião pela primeira vez, sentindo um misto de emoção, euforia e entusiasmo. Após uma noite em branco, cansada, acabei por adormecer, nem dei pelas horas a passar e, quando acordei, para minha surpresa, já estava em Portugal.
Que alegria! lá estava minha avó à minha espera, com aquele grande sorriso encantador, incomparável. Durante a viagem de regresso a casa da minha avó, aproveitei para contar algumas das aventuras no Brasil.
Chegamos. Que nostalgia, tudo continua como antes! Até mesmo os desenhos que eu pintava com a minha avó continuam na parede da entrada.
Ouvi passos a descer rapidamente a escada de mármore. Era Maria Eugénia, uma grande amiga da minha avó. Depois da morte do meu avô, a minha avó passou a morar na casa do comendador Nogueira da Silva, marido de Maria Eugénia, que também havia falecido. Assim, ambas evitavam a solidão da viuvez.
Devido à diferença do fuso horário e como já estava tarde aqui em Portugal, fui-me deitar ao som daquela melodia que a minha avó me costumava pôr para adormecer.
No dia seguinte, abri a janela do meu quarto e.... que maravilha!, que lindo estava o jardim, cheio de vida e cor, parecia um mar de rosas! Avistei minha avó e Maria Eugénia a conversarem, às gargalhadas e decidi descer as escadas marmorizadas e juntar-me a elas. Aproximei-me da mesa decorada com um belo tabuleiro com chávenas de prata. Enquanto tomava o pequeno-almoço, o meu olhar fixou-se no exterior, naquele lugar escondido que me parecia misterioso, com as paredes cheias de heras.
Após o almoço, fui dar uma volta para visitar o centro de Braga, para assim relembrar os velhos tempos de quando eu caminhava todos os dias com a minha avó.
Tudo mudou! Foi a primeira impressão que tive quando olhei ao meu redor e percebi que estava tudo diferente, muitas lojas mudaram de aspeto, outras mudaram de ramo e de proprietário. Apenas três lojas continuavam no mesmo lugar, nada nelas aparentemente mudara desde que viera a Portugal pela primeira vez. A Queijaria Central conservava a mesma montra onde os inúmeros queijos punham uma tonalidade amarelada, a Casa Pereira das Violas exibia vários artigos de retrosaria de diversas cores e a loja de café A Negrita marcava a sua presença emanando um intenso, mas agradável cheiro de café.
Decidi fazer uma breve visita a essas lojas e relembrar os velhos tempos. A minha primeira paragem foi a Queijaria Central. Entrei e decidi explorar o local como fazia quando era criança. Que surpresa! haviam mudado o interior, as paredes estavam cheias de painéis de azulejos representando locais emblemáticos de Braga, o que fez com que a loja parecesse maior, com mais vida. Mas, apesar de o local ter tantos anos e passar de geração em geração, continuava tradicional na qualidade e acolhedor no tratamento. Aproveitei para comer o queijo que eu tanto adorava em criança e depois agradeci ao proprietário pela hospitalidade e segui para a Casa Pereira das Violas.
Reencontrei Carlos Pereira, um grande amigo de infância da minha avó, que hoje é o proprietário da loja. Para meu espanto, disse-me que a casa havia completado 100 anos havia pouco tempo, no dia 3 de janeiro de 2018. A loja permanecia recheada de lãs de várias cores, novelos de linha, fitas, rendas o que lhe conferia um carácter de vitalidade. Aproveitei para conversar com o Sr. Carlos, que é um bom contador de histórias, que acabou por narrar uma aventura com a minha avó. Nessa aventura, ele mencionou que Lena ( a minha avó) e ele tinham por hábito ajudar o pai do Carlos na loja e, em determinados dias, colaboravam também com ele, fazendo solidariedade. Davam, então, a parte interna do pão, o «violo», aos mais necessitados. Com o tempo, a palavra alterou-se e, atualmente, diz-se "miolo". Será essa a origem do nome da loja.
Adorei conhecer a origem do nome da Casa Pereira das Violas, e saber um pouco mais sobre as peripécias da juventude da minha avó e de Carlos Pereira.
Após este bom momento de convívio, dirigi-me à loja A Negrita, uma loja de comércio tradicional que vende café de vários países desde S.Tomé ao Brasil e à Colômbia. Senti-me atraída pelo intenso cheiro a café e perguntei de onde provinha aquele aroma. O proprietário mostrou-se disponível para me acompanhar numa visita guiada ao armazém. No armazém, o cheiro a café era ainda deliciosamente mais intenso. Com toda a amabilidade possível, demonstrou-me como se moía o café e com que critérios se faziam as misturas. Foi então que me lembrei da minha avó e comentei que ela era uma grande amante de café. O senhor acabou por me oferecer umas amostras de café brasileiro para degustar com minha avó num belo fim de tarde.
De repente, olhei para o meu relógio e vi que já era bastante tarde. O tempo tinha passado a voar, despedi-me do proprietário e agradeci-lhe pela gentileza de me mostrar a loja. A caminho do lugar a que chamo casa, fui percebendo como tinha sido reconfortante recordar o que vivenciei quando era pequena. Tinha sido uma tarde de muitas emoções.
Cheguei a casa ao anoitecer, a minha avó estava a tocar harpa na sala e resolvi preparar-lhe o café que tinha trazido da loja. A melodia guiou-me ao seu encontro. Quando cheguei perto dela, fui surpreendida pela harmonia da mistura de sensações que era ouvir a música que ela tocava e observar a imensa beleza do jardim iluminado, visível através da grande parede envidraçada. Não podia estar mais maravilhada, o momento era único: a serena beleza do jardim, o som da harpa e o gosto do café brasileiro.
Espero voltar brevemente a Portugal, criar novas memórias e trazer a minha família ao lugar que me cativa cada vez mais.
Autores: Izabela Conti; Letícia Azevedo, e Tânia Dias
O Legado
Era uma vez um menino chamado José Pedro. Tinha 8 anos e uma enorme paixão pelo estabelecimento do seu avô que era conhecido como A Negrita.
O seu avô, António Joaquim, tinha fundado a casa em 1948, fazendo com que o negócio se tornasse célebre e conceituado na cidade de Braga e procurado por muitos clientes de diversos pontos da cidade e do país. José Pedro tinha por hábito passar as férias no estabelecimento do avô, já que os pais passavam os dias a trabalhar. Ele ajudava o avô em todas as tarefas, mas, especialmente, na caixa registadora para receber o pagamento dos clientes. Assim, o menino José praticava matemática e recebia como recompensa do avô um rebuçado de café.
O estabelecimento era bastante pequeno, porém acolhedor para os clientes que elogiavam muito o ambiente familiar e alegre daquela casa e dos seus funcionários, incluindo José Pedro. Na pequena montra, José e o avô colocavam sacos e embalagens dos vários tipos de café para que os bracarenses pudessem apreciar os produtos à venda. Para moer os grãos de café, era utilizado o moinho, mas antes de ser moído e disponibilizado para venda, era colocado numa espécie de armazém onde existiam vários sacos enormes com grãos de café. Era aí que José gostava de passar a maior parte do tempo, a brincar, quando não tinha que ajudar o avô, mas a verdade é que passava muito desse tempo a fazer asneiras em cima dos sacos. Um dia, não reparou que um dos sacos estava já aberto e, ao tentar pôr-se em cima dele, acabou por derrubar uma grande quantidade do café que o avô tinha recebido nesse mesmo dia. O rapaz ainda tentou esconder o sucedido só que foi apenas uma questão de tempo até o avô reparar no saco de café entornado. Ao deparar-se com aquela quantidade de café espalhado no chão, ficou muito zangado com o neto, levando-o de castigo para casa dos pais.
Os pais de José não estavam a passar pela melhor situação financeira. Aliás, a situação estava bastante crítica e emigrar começava a parecer-lhes a melhor opção. O facto é que trabalhavam o dia todo, mal descansavam, mas, mesmo assim, era muito difícil manter a casa e comprar mantimentos para poderem viver com alguma qualidade de vida. José, ainda inocente, não se apercebia daquilo que se estava a passar e, para ele, tudo estava bem desde que estivesse com o avô ou os amigos da escola.
Numa tarde, aproveitando o facto de o José estar a jogar à bola com os amigos, os pais tiveram uma longa e séria conversa e acabaram por tomar uma decisão muito difícil: iam mesmo emigrar para França. Só faltava avisar o filho e a família. Nesse mesmo dia, falaram com o José sobre a decisão que tinham tomado e, devido à ingenuidade própria da idade, ele não percebeu muito bem de que é que os pais falavam. Achou que falavam sobre uma viagem que aconteceria dentro de pouco tempo, que seria naturalmente breve, de ida e volta. Mas, na realidade, iria ser uma viagem sem regresso marcado.
A família despediu-se do avô n'A Negrita. Todos estavam profundamente tristes, exceto o menino que não compreendia o porquê de tanta mágoa; muito inocentemente, até achava divertido ir fazer uma viagem. Antes de irem embora, o avô, muito pesaroso, deu um grande abraço ao neto e ofereceu-lhe um pacote daqueles rebuçados de café que lhe dava sempre que o menino o ajudava.
Já a viver em território gaulês, o José Pedro teve várias dificuldades de adaptação, demorou muito a fazer amigos e a aprender a língua francesa para comunicar com as outras pessoas, mas a verdade é que, apesar das dificuldades de adaptação, o nível de vida da família melhorou muito. Tanto a mãe como o pai arranjaram um bom emprego e recebiam salários que lhes permitiam levar uma vida melhor do que a que tinham em Portugal. Os anos foram passando e o José já se tinha habituado a tudo de bom que aquele país lhe proporcionara, menos a um pormenor ... sentia a falta do seu avô!
Vinte anos depois da ida para França, a família recebeu a triste notícia de que o avô havia falecido aos 82 anos, após um enfarte do miocárdio. A notícia deixou José Pedro muito abalado e preocupado com o facto de o estabelecimento do avô poder vir a fechar. Por isso e apesar de ter um bom emprego, decidiu voltar para Portugal para reerguer o negócio. Toda a família viajou também para assistir ao funeral do avô. Depois da cerimónia fúnebre, decidiram ir à "A Negrita". Foi um regresso emocionante, sobretudo para o José que passara lá grande parte do seu tempo de férias com o seu querido avô... aquele pequeno estabelecimento, os moinhos para moer o café, o aroma que pairava no ar, o armazém com os enormes sacos fizeram com que José tivesse uma sensação de nostalgia nunca antes sentida. Com o falecimento do avô, José sentiu que tinha que ser ele a dar continuidade ao legado do avô. Soube depois que havia mais dois indivíduos que já tinham manifestado o seu interesse. Um chamava-se Pedro e o outro Lucas.
Pedro era um homem bastante alto, natural de Braga, logo já devia conhecer o espaço e, calculando o lucro que lhe poderia trazer, ficou interessado em comprá-lo. Lucas, pelo contrário, nem era português; era brasileiro, tinha-se mudado para Portugal há cerca de um mês e já tinha visitado várias localidades. Em Braga, A Negrita interessou-lhe bastante. Quando teve conhecimento da existência de potenciais interessados no negócio do avô, José questionou-se: "E se nos juntássemos os três?". Contactou o Pedro e o Lucas, marcaram uma reunião na qual lhes fez uma proposta de sociedade que os dois aceitaram. José Pedro era o homem mais feliz do mundo naquele momento. Ele tina a certeza de que o seu avô, onde quer que estivesse, iria orgulhar-se dele.
Firmada a sociedade, decidiram começar por aumentar o espaço - um negócio tão célebre e conceituado tinha que ter maiores dimensões; além disso, compraram mais moinhos, contrataram mais funcionários, dando assim emprego a pessoas que estavam a passar por dificuldades, e acrescentaram um produto novo para venda ao público. Sabem qual foi? Os rebuçados de café que o José recebia sempre que ajudava o avô.
Havia ainda algo que o José queria fazer e com o qual os seus novos sócios concordaram inteiramente: para homenagear o avô, José colocou um grande retrato dele mesmo no centro da parede do estabelecimento. Aquele negócio, tão apreciado pelos bracarenses, era, sem dúvida, obra do grande António Joaquim, o homem que o fundara há tantos anos atrás.
Os anos passaram, mas o local não perdeu a simplicidade nem a afetuosidade para com os seus clientes que manifestavam também a sua simpatia a todos os sócios. Novos clientes continuavam a aparecer e José enchia-se de orgulho por ter conseguido dar continuidade àquilo que o avô começara. Ele sabia que, onde quer que estivesse, o avô era, de todos, o mais orgulhoso!
Autores: Pedro Coelho; Lucas Bacellar e José Pedro ViegaCafé Vianna
Miles
Era noite de lua cheia. Estávamos, como combinado, à entrada do Palácio Dos Biscainhos que pertencia aos condes de Bertiandos, uma família aristocrata, célebre na cidade pela sua riqueza. Faltava um quarto para as dez e esperávamos a chegada dos guardas-noturnos. Assim que chegaram, tratamos logo de dar início ao nosso plano.
Logo que entrámos no Palácio, ficamos deleitados com tanta beleza, desde os tetos luxuosos às paredes decoradas com imponentes painéis de azulejos. Subimos a escadaria até ao segundo andar e seguimos o corredor estreito e sombrio que nos levava à capela. Estávamos a poucos momentos de concretizarmos o nosso objetivo.
Estava ali mesmo, à nossa frente: o móvel Oratório! Era decorado a talha dourada, tendo no seu interior a Custódia, tal e qual como a tínhamos idealizado.
Com celeridade, pegamos na Custódia e corremos em direcção às escadas exteriores que nos levavam aos jardins, um vasto espaço, de aproximadamente um hectare, enriquecido com diversas fontes e esculturas barrocas. O espaço era tão deslumbrante que não era de admirar que, no reinado de Luís I de Portugal, tenha merecido a honra de ser visitado pela família real. Avançamos a vedação e corremos em direcção aos nossos cavalos.
Mais um assalto bem sucedido! Arrisco-me a dizer que foi dos nossos melhores ataques. Certamente, o país não se esquecerá de nós, o Grupo Miles.
Um século passou e hoje sou eu a tomar as rédeas do Grupo Miles, criado pelo meu bisavô. Confesso que o bem da herança que mais me desperta atenção é a Custódia dos condes de Bertiandos, roubada ao Palácio dos Biscainhos num assalto primoroso. Na tarde chuvosa de quinta- feira, tínhamos marcada uma reunião do Grupo Miles na nossa sede, o Café Vianna, um café na Arcada, muito requintado e frequentado pela alta burguesia bracarense. O café, que até já foi uma espécie de banco, funciona como clube social e salão de jogos e há noite como bar. A seguir à 1ª Guerra Mundial, não havia trocos em Braga e o café Vianna dava senhas que as pessoas trocavam por artigos, por exemplo, na mercearia. O seu interior é ainda mais fascinante que a sua história, desde as enormes portas de ferro espelhadas que dão entrada ao café, aos amplos espelhos rebocados a dourado que cobrem as paredes. O chão forrado a azulejos com insígnias, as mesas de design clássico e as inúmeras poltronas encarnadas, tudo oferece um maior conforto aos clientes. À hora combinada, todos os elementos foram chegando. Misturados com os restantes clientes, ninguém suspeitaria que éramos o Grupo Miles, um grupo perigoso e "famoso" pelos seus assaltos, que fazia do café Vianna a sua sede.
Sem levantar suspeitas, sentamo-nos numa mesa ao fundo da sala, fizemos sinal à D.Carla, a empregada mais simpática da "casa "; com a cortesia usual, de imediato se dirigiu até nós e anotou o nosso pedido, como já era habitual.
Finalmente saciados, demos início à reunião.
- Entrou em contacto comigo um contrabandista especializado em antiguidades e fez-nos uma proposta tentadora para a compra da Custódia.- Informou Verónica aos restantes membros.
Apesar de algumas caras de espanto e indignação inicial, todos acabaram por concordar com a proposta feita pelo contrabandista a Verónica.
A Custódia acabaria por ser leiloada na fronteira espanhola, no mercado negro.
Nesse leilão, só pessoas do alto estatuto social estariam presentes. Entre elas, António Augusto Nogueira da Silva, descendente de uma família da burguesia bracarense, ligada ao comércio e à área financeira. Nogueira da Silva era um grande apreciador de arte, fortemente ligado ao estado salazarista.
No dia do leilão, Nogueira da Silva ficou imensamente interessado na Custódia. Logo que teve oportunidade, ofereceu uma exorbitante quantia de dinheiro. A sorte acabou por estar do seu lado e conseguiu ficar com ela.
Nogueira da Silva era casado com Maria Eugénia há 20 anos a quem oferecia muitas das peças de arte que comprava. Unia-os um amor puro, sincero e harmonioso e poucos são aqueles que vivem um amor assim.
A notícia que Nogueira da Silva tinha adquirido uma nova peça de arte religiosa correu a cidade bracarense e a sua periferia. Quando o Grupo Miles percebeu que a "sua" Custódia tinha sido comprada por aquele ilustre bracarense, todos tiveram o mesmo pensamento: Nogueira da Silva era o alvo certo para o Grupo Miles pois era possuidor de uma grande fortuna e de uma mansão com objetos valiosos importados de todo o mundo, avaliados numa enorme fortuna. No mínimo, conseguiriam "reaver" a Custódia ...
Nogueira da Silva iria ausentar-se da cidade por uns dias, em virtude de uma reunião com o executivo português na Capital; era a altura perfeita para o Grupo Miles atacar. Com Nogueira da Silva ausente, a casa seria fácil de assaltar visto que, quando ele se ausentava, levava consigo todos os seus empregados e seguranças pessoais. Logo, a casa ficaria desabitada. Tudo favorecia o Grupo Miles, até que surgiu uma notícia avassaladora que poderia alterar os planos: Maria Eugénia não iria acompanhar o marido nesta visita à Capital.Com Maria Eugénia em casa, o Grupo não poderia atacar.
Depois de se reunirem e pensarem no assunto, chegaram a consenso. Maria Eugénia era uma "pedra" demasiado grande no caminho do Grupo Miles e teria que ser retirada para que o plano decorresse conforme pretendiam. Não foram precisos muitos dias para que da teoria se passasse à prática. Maria Eugénia teria de ser eliminada de forma misteriosa - um envenenamento seria perfeito. Para isso, Verónica encarregou-se de ir comprar umas saquetas de chá à mercearia Meira e Silva, do Sr. Manuel, no Campo da Vinha. Lá podiam-se comprar chás importados de todo o mundo, principalmente do Oriente e de que Maria Eugénia era apreciadora.
Adulterando a composição do chá, adicionando gotas de um veneno fatal, Maria Eugénia teria morte imediata logo que o ingerisse. Verónica e o restante grupo com os seus truques e manhas conseguiram entrar na cozinha de Nogueira da Silva e substituíram o chá habitual, que seria servido a Maria Eugénia, pelo chá adulterado com veneno. O chá foi servido a Maria Eugénia e foram precisos apenas dez minutos para que ela sucumbisse. O caos instalou-se na casa de Nogueira da Silva.
Dias depois da morte da sua amada e depois de lhe ter prestado o seu luto, Nogueira da Silva partiu para a capital, como estava previsto.
Era nessa noite que o Grupo Miles iria atacar. Marcaram encontro, junto à entrada da mansão de Nogueira da Silva. Faltava um quarto para a meia noite. Estava tudo a postos para dar início a mais um assalto que tinha tudo para ser genial.
Com Maria Eugénia eliminada, a casa estava vazia, só se ouvia o som do vento a soprar nas árvores e arbustos que decoravam o majestoso jardim.Com aceleradas passadas, o grupo entrou na mansão, com Verónica a indicar o caminho aos restantes.
Quando estavam quase a concluir o assalto e se dirigiam à última divisão da casa, uma sala perto da biblioteca com um móvel de castanho envernizado da época de Luís XIV. Qual não foi o espanto do grupo quando viram um objeto em cima do venusto móvel: era a majestosa Custódia e, por alguns segundos, todos a admiraram até que um súbito barulho os sobressaltou...
Era Nogueira da Silva acompanhado por militares armados e pela PIDE (policia militar de defesa do estado). Como nos teriam descoberto?
Rendemo-nos de imediato, não tínhamos escapatória possível. Depois de anos de experiência a planear e a efetuar extraordinários assaltos, fomos apanhados!
Será o fim do Grupo Miles? Não! a nossa história não acaba aqui, ainda temos muitos golpes para dar e ataques para planear.
Estejam atentos!
Autores: Cláudia Pereira; Guilherme Barbosa e Joana Araújo
O AMOR PROIBIDO DE CONSTANÇA
Quero contar-vos a história da minha vida. Chamo-me Constança e, na altura dos factos, tinha cerca de 20 anos e vivia com os meus pais, os condes Afonso e Beatriz de Bertiandos, num palácio conhecido em Braga, o palácio era enorme, talvez o maior palácio de Braga, com grande número de divisões: átrio, escadaria azulejada, sala de entrada, salão nobre, capela, salão de música e de jogos, sala de jantar, claustro, cozinha, cavalariças, entre outras, sendo rematado por um grande jardim externo.
Numa tarde de Primavera, dia 21 de abril, estava a preparar-me para um jantar que iria ser muito importante para o meu futuro, mas mais para a frente saberão do que se tratará...
- Dilda! Podes chegar aqui por favor?
Dilda era a minha dama de companhia, ela ajudava-me em tudo, a vestir, a pentear, fazia até o papel de conselheira, era uma segunda mãe para mim.
-Sim, querida, de que precisas?
-Ajudas-me a escolher o vestido ideal para logo?
Enquanto escolhíamos o vestido, idealizávamos como seria o duque.
Duque?! Perguntam vocês; sim ia jantar com o escolhido pelos meus pais para se casar comigo e não conseguia parar de imaginar como ele seria.
-Como achas que ele será, Dilda? Imagino um rapaz, lindo, educado, gentil ... achas que ele terá olhos azuis? Castanhos? Será loiro, ou um moreno charmoso?
-E se ele for totalmente o contrário do que estás a imaginar? Feio, arrogante, sem classe e desinteressante...
Escolhida a roupa, segui para o Salão de Música e de Jogos para a minha aula de piano. Depois da aula fui ler um livro para o jardim. O jardim do palácio era o meu espaço favorito: flores variadas e coloridas em todas as épocas do ano, algumas árvores exóticas, e até uma casa na árvore que eu frequentava para dedicar à leitura. Todas as manhãs, passeava no jardim para respirar o ar puro cheio de aromas que a natureza envolvente me oferecia. Ali, sentia um grande conforto interior.
Nesse dia, a leitura foi interrompida por Zacarias que se dirigia às cavalariças com os nossos cavalos (o meu pai gostava muito de cavalos).
-Menina já viu as horas? Já deveria estar nos seus aposentos.
Percebi que já estava a anoitecer e apressei-me. Dilda já deveria estar à minha espera.
-Despacha-te, Constança, já estás atrasada!
Apressadamente coloquei o vestido e os sapatos enquanto Dilda me fazia um lindo penteado.
Ouvi a carruagem a chegar e desci, para receber o duque juntamente com os meus pais.
A minha mãe, a condessa Beatriz, era uma mulher linda, com um forte cabelo ruivo ondulado e olhos verdes; o meu pai, elegante também, tinha um olhar intenso, cor mel, e um cabelo liso escuro. Mal abriram o portão, senti um nervosinho, pois estava curiosíssima para ver como seria o duque.
Entrou, apresentou-se e fixou o seu olhar em mim. Fisicamente era alto, tinha os olhos verdes como esmeraldas e o cabelo era castanho claro; chamava-se Filipe e eu adorava aquele nome.
Já na sala de lazer, como um cavalheiro devia ser, gentilmente, ofereceu-me a cadeira para eu me sentar. Agradeci-lhe, com um leve gesto de cabeça.
Seguidamente, o duque sentou-se também com uma postura formal. Estivemos a falar, mas ... a sua conversa não me despertou interesse. Comecei a perceber que tínhamos personalidades distintas, ele só falava de si mesmo e adorava engrandecer os seus bens e o império do pai.
-Ao longo do tempo, o meu pai foi construindo uma vasta fortuna devido aos negócios que estabeleceu na Índia e nos novos mundos.
-Já vi que a minha filha e os meus futuros netos estão bem entregues ... - sussurrou o meu pai ao ouvido da minha mãe.
Depois de um curto diálogo, pedimos licença para nos levantarmos, eu e Filipe. Fomos passear para o jardim. Como acompanhava muitas vezes o seu pai de negócios, Filipe tinha aprendido a gostar de ritmos musicais diferentes, mais modernos. Sabendo que uma banda que apreciava ia tocar nessa noite, no café Vianna, convidou-me a acompanhá-lo. Os meus pais ficaram algo constrangidos, mas, depois do jantar, chamaram Zacarias para nos levar.
Era a primeira vez que entrava naquele café pois raramente saía de casa. Era amplo, repleto de espelhos de talha dourada nas paredes que os sofás vermelhos e os reposteiros punham em destaque; era um espaço agradável frequentado por muitos jovens. Também havia uma sala de jogos na parte de trás. Sentamo-nos, fomos bem recebidos e fizemos o pedido...
Para não variar, Filipe continuava a gabar-se ... então, farta da sua conversa, disse-lhe que ia apanhar ar. No momento em que abri a porta, um dos músicos esbarrou comigo e houve uma troca de olhares difícil de descrever e uma química inexplicável ...
Quando voltei para dentro, a sala estava na penumbra e os músicos tocavam algo romântico pelo que percebi. Já era tarde e decidimos voltar; Filipe deixou-me no palácio e despedimo-nos.
Mal me deitei, não parei de pensar no músico. Dilda apareceu para saber como tinha corrido a noite.
- Então, menina, como correu o encontro?
-Podia ter corrido melhor... Filipe não é, com toda a certeza, a pessoa com quem quero passar a minha vida!
-Mas ... essa cara ..., vejo que estás muito contente! Afinal, o que se passou?
-Ah... não te escapa nada, não é?
-Conta-me lá o motivo dessa felicidade.
Resumidamente, contei-lhe o que se passara:
-Senti algo inexplicável quando me esbarrei com um dos músicos: era lindo, de cor negra, um olhar simpático, possuía um sorriso franco, cativante que me deixou sem palavras!
-Ai, ai! Os teus pais não vão gostar da decisão, menina Constança ...Mas, agora dorme que amanhã vão ser um dia longo. Boa noite!
-Boa noite, Dilda.
No dia seguinte, levantei-me, vesti-me, prendi os meus longos cabelos louros e dirigi-me à sala para tomar o pequeno-almoço. Entretanto chegaram os meus pais e conversei com eles acerca da desilusão que o duque tinha sido para mim e que não sentira qualquer afinidade por ele. O meu pai não aceitou muito bem, porém a minha mãe compreendeu perfeitamente. Nesse dia à noite, não resisti à tentação e, sem os meus pais saberem, fui ao Café Vianna para o ver. No fim do concerto, trocamos olhares e ele decidiu sentar-se a meu lado para conversarmos.
- Olá, por aqui de novo? Desde já, peço desculpa do nosso pequeno "encontrão"...
Rimos, descontraidamente.
- Gostei bastante das vossas músicas e decidi voltar.
-Já agora, como se chama?
- Constança ... e o "senhor distraído"?
-Ah! Ah! - Gargalhou - Chamo-me Inácio. Não veio com o seu namorado?
- Qual namorado?!
- Aquele que estava consigo ontem à noite.
-Ah! Sei a quem se refere, mas ele não é meu namorado... para lhe contar a verdade, estávamos a ter um encontro, que foi decidido pelos meus pais.
- Mas, então não pretende ficar com ele?
Expliquei-lhe o porquê de não o querer para noivo. Falamos durante algum tempo e, como já estava a ficar tarde, decidi regressar e Inácio ofereceu-se para me acompanhar até casa.
Quando chegámos, despedimo-nos e entrei. Voltei-me para trás quando ouvi Inácio chamar-me.
-Amanhã, podemos encontrar-nos na Fonte do Ídolo?
-Claro que sim ... então, até amanhã!
-Boa noite!
Agradeci, sorri-lhe e voltei para o palácio. Subi as escadas e dirigi-me ao quarto para dormir; tinha sido uma noite cheia de emoções. Na manhã seguinte, fiz a minha rotina habitual, mas, de tarde, decidi praticar mais tempo de piano, sentia-me inspirada para a música! Passado algum tempo, jantei, e porque não podia estar sempre a sair (era uma jovem condessa e tinha que ter um comportamento como tal), pedi a Dilda ajuda para "fugir", sem que os meus pais notassem. Mais uma vez, fui ter com ele.
Inácio já se encontrava na Fonte do Ídolo. A lua iluminava o recinto; conversamos algum tempo e, inesperadamente, ele foi buscar a viola que estava por detrás da fonte e fez-me uma serenata. Foi um momento encantador: Inácio, a serenata, o silêncio daquele monumento milenar em pedra ... Mas eu tinha que regressar. Decidimos ir para o meu jardim, entramos pelas traseiras e ficamos lá mais um pouco, até que me apercebi que Zacarias estava a colocar os cavalos nas cavalariças e podia apanhar-nos ali. Então, Inácio disse que era melhor retirar-se e ... de repente, só me lembro de sentir aqueles lindos lábios. Beijamo-nos e, a partir daquele beijo, percebi que era ele que eu queria para o meu futuro. Fui-me deitar e não parei de pensar nos acontecimentos daquela noite; cada vez tinha mais vontade de estar com ele.
A partir desse dia, continuamos a encontrar-nos e, numa noite de verão, ele convidou-me para ir assistir a mais um concerto que ia fazer no Café Vianna. Dedicou-me uma música juntamente com asua banda e a mascote (a mascote era um boneco que o Café Vianna adotou e com a qual procurava homenagear a banda: era de cor negra e vestia igual aos membros da banda de Inácio). No final, a banda parou e Inácio pediu-me que chegasse mais perto e ajoelhou-se para pedir a minha mão. Confusa, saí a correr; Inácio veio atrás de mim, pegou-me no braço, abraçou-me e nesse momento, não contive as minhas lágrimas.
-Desculpa, os meus pais não vão aceitar esta relação. Não devíamos ter continuado com estes encontros ....
-Constança, eu amo-te! Independentemente de os teus pais não aceitarem a nossa relação, nós temos de tentar.
- Tens razão. Quando estiver preparada, falo com os meus pais, até lá mantemos a relação em segredo...
Inácio concordou e estivemos dois meses assim.
No dia 15 de setembro, no meu aniversário, Inácio fez-me uma visita, à noite, no jardim do palácio. Zacarias espiou-me e contou o que tinha visto aos meus pais, mas eu só o soube no dia a seguir. Na manhã seguinte, os meus pais disseram que queriam falar comigo. Ambos estavam com sérias e fortes expressões, o que me fez perceber logo do que se tratava. Nesse momento, parecia que o meu mundo tinha desabado. Tive uma forte discussão com eles, o meu pai estava totalmente em desacordo com a nossa relação.
- O que achas que vão pensar de nós ao ver a filha do conde de Bertiandos com alguém que nem pertence sequer à burguesia? Para além do mais, é negro! Onde já se viu tal disparate?
- Pai, o senhor está a ser injusto! Só quer saber do que pensam acerca de si e não quer saber da felicidade da sua única filha! Acha isso correto? Quer ver-me casada com alguém que me deixe infeliz? Parece que sim...
Saí dali a correr e fui chorar para o meu quarto. Ao jantar, já estávamos mais calmos e pedi-lhe uma oportunidade para conhecer Zacarias. Podia ser que mudasse a sua opinião acerca dele e que se apercebesse do quanto ele me fazia feliz. O meu pai nem me respondeu, estava muito zangado comigo.
Andei uma semana completamente desolada, sem chão, não falava com ninguém, nem mesmo com Dilda. Já não passeava de manhã no jardim para respirar o ar puro da natureza e quando olhava pela janela ainda me lembrava do local onde estivera com Inácio. Não parava de pensar nele, os nossos momentos não me saíam do pensamento, estava cheia de saudades, mas o que me entristecia mais era o facto de o meu pai não querer saber da minha felicidade e estar apenas preocupado com o que os outros iriam pensar. Evidentemente, o meu pai reparou que eu andava bastante triste e, um dia, apareceu no meu quarto para conversarmos.
- Bom dia, filha, podemos conversar?
- Se for por um bom motivo, sim... - disse eu, desinteressada.
- Reparei que tens andado muito em baixo e penso que possa ser pela ausência de Inácio... Estive a pensar bastante e vou dar-te a oportunidade de trazeres Inácio cá a casa para o conhecer.
- Muito obrigado, pai, vai adorá-lo. Tenho a certeza!
Parece que o meu sorriso contagiou até o ambiente ao meu redor, um sol nasceu no meu quarto, desci as escadas e pedi a Zacarias que me levasse à cidade para contactar com Inácio e convidei-o para jantar em casa com os meus pais. Ele ficou muito contente.
Nessa noite, fui eu própria abrir o portão a Inácio. Ele estava lindo, com um fato azul escuro, camisa e borboleta branca a sobressair. Abracei-o de imediato. Seguimos para a sala de jantar, apresentei-o aos meus pais e sentamo-nos todos. A conversa estava a fluir muito bem sobre viagens, política, música ... o meu pai estava a adorá-lo (tal como eu tinha previsto), até já estavam às gargalhadas! Os meus pais gostaram bastante dele e perceberam que era um bom partido para mim.
Passado cerca de um ano casámos e os meus pais não podiam estar mais felizes ao ver-me feliz também. Hoje temos dois filhos lindos, a Leonor e o Dinis, ambos bastante parecidos com os avós paternos e maternos e são uns meninos muito adoráveis. Se não tivéssemos ultrapassado os preconceitos e as dificuldades, não teríamos chegado à verdadeira felicidade.
Ah! Já me esquecia de vos dizer que, todos os anos, festejamos o aniversário do nosso abençoado "encontrão" no acolhedor Café Vianna, sob o olhar cúmplice da mascote ...
Autores: Ana Cardoso; Fátima Gonçalves e Joana Ramos
Centésima Página
UMA HISTÓRIA POR CONTAR
Era o dia 30 de dezembro de 1919, o dia do baile. O meu querido amigo António Salazar tinha-me convidado para o baile de fim de ano que costumava realizar na sua casa, em Lisboa. Estava eu em frente ao espelho do quarto do hotel a apertar a minha gravata e tinha a sensação de que aquele dia iria mudar a minha vida e eu não sabia muito bem porquê. Chamei o motorista e pedi-lhe que fosse pelo percurso mais curto porque o baile começava dentro de poucos instantes. No momento em que entrei, deparei-me com o salão mais bonito que alguma vez vira, tinha candelabros cobertos de diamantes, cortinados vermelhos de veludo, todo um ambiente nobre e sofisticado. Estava eu deslumbrado a admirar o salão até que ouvi "- Sr. Comendador Nogueira da Silva, por aqui, por favor." Abandonei o meu deslumbramento e segui as indicações que me tinham sido dadas. Assim que desci as escadas, e entrei num outro salão também muito luxuoso, vi vários cavalheiros e senhoras vestidas a rigor, a maioria com vestidos escuros ou pretos, mas apenas uma única com um vestido cor de pérola. Era uma mulher muito bonita, que embora um pouco mais velha do que eu, tinha tudo aquilo que eu procurava. Não tive coragem de ir falar com ela. Uns minutos depois, Salazar veio ao meu encontro, cumprimentou-me e disse-me "- Ainda bem que vieste, meu amigo". Eu sorri e felicitei-o pela magnífica festa que tinha preparado. Aproveitei também o momento para lhe perguntar quem era aquela bonita e elegante mulher vestida de claro. Ele disse-me que era a filha do doutor em quem ele tinha mais confiança, e disse-me também que ela era de Braga, ou seja, era um bom sinal para mim, pois seria mais fácil encontrá-la. Momentos depois, começou a primeira valsa, vi ali a minha oportunidade, ganhei coragem e aproximei-me dela. Ela olhou-me nos olhos com um olhar ingénuo e doce, fiz-lhe uma vénia e, gentilmente, pedi-lhe para dançar. Ela a princípio hesitou, mas não resistimos e acabamos por dançar juntos. Nesse momento, parecia que naquele belo e enorme salão só estávamos eu e ela, eu e aquela mulher tão bonita e que parecia tão deslocada, tão sozinha. Perguntei-lhe o nome e ela sussurrou-me ao ouvido "Maria Eugénia" e eu fiquei completamente rendido àquela voz. Depois daquela valsa, vieram mais duas e nós continuamos a dançar juntos. A cada passo que dávamos, ficávamos cada vez mais atraídos, parecia amor à primeira vista. Apenas o ruído das 12 badaladas veio interromper o nosso idílico momento. Assim que aquele ruído soou, o baile terminou e nunca mais vi Maria Eugénia. Salazar veio falar comigo pois tinha percebido que eu estava interessado nela e eu não lho consegui negar.
Uns dias depois, procurei, em Braga, a Clínica de que Salazar me tinha falado. Entrei e, de imediato, veio na minha direção o pai de Maria Eugénia. Perguntei-lhe se ela estava e este disse-me que ia chamá-la. No momento em que a vi, os meus olhos brilharam, o meu coração acelerou, sentia-me nervoso pois era a primeira vez que a via depois do baile. Convidei-a para irmos dar uma volta ate à Casa Rolão (onde, anos mais tarde, funcionaria a Livraria 100ª Página) e que tinha um jardim com um lago e algumas árvores, era pequeno, mas muito acolhedor e transmitia-me muita tranquilidade, algo que não é muito comum encontrar em plena cidade. Passamos a tarde toda a conversar; foi, sem dúvida, uma das tardes mais agradáveis da minha vida, nunca pensei alguma vez ter este sentimento por alguém. Ela é uma mulher muito diferente de todas as outras, delicada, carinhosa ... é realmente muito especial. Quando nos despedimos neste nosso primeiro encontro, combinamos encontrar-nos ali todas as semanas. Depois de vários encontros, ganhei coragem e pedi a sua mão em casamento e ela disse que sim, com um enorme sorriso na face e os olhos a brilhar. Mais tarde, os seus pais deram a sua permissão e a sua bênção ao nosso casamento.
Passaram-se quatro meses de muito trabalho e dedicação para que tudo fosse perfeito no dia do nosso casamento. Finalmente, chegou o grande dia! Eu estava pronto para ir para a igreja e a limousine já estava à minha espera. A igreja estava deslumbrante, mesmo ao gosto de Maria Eugénia, os bancos tinham rosas brancas e fitas em volta, a passadeira estava coberta de pétalas de rosas, a igreja estava cheia, e os nossos convidados estavam todos vestidos a rigor. Dirigi-me ao altar, estava nervoso. Instantes depois, começou a marcha nupcial e ela entrou de braço dado com o pai, parecia um anjo, estava vestida de branco com um véu que lhe cobria a cabeça e dava brilho àquela igreja. Veio até mim com um esplendoroso sorriso no rosto, nunca antes a vira sorrir assim. Seguiram-se os votos do matrimónio e assim foi, "na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe".
Com o apoio da minha mulher, levantei uma das maiores casas de apostas do país, a Casa da Sorte, e assim consegui construir a casa de sonho da minha mulher. Aquela casa que seria para sempre lembrada como a Casa Nogueira da Silva. Maria Eugénia fazia questão de que, em nossa casa, houvesse um grande e belo salão inspirado na casa de António Salazar, aquele que foi o espaço onde toda a nossa história havia começado. Eu apenas desejava ter um bonito e acolhedor jardim como forma de lembrar a Casa Rolão, sítio onde passamos muitas das nossas tardes a falar e a sonhar com o que seria o nosso futuro e a planear o dia mais feliz das nossas vidas. E assim se construiu a nossa casa de sonho, uma casa com muita história mas, acima de tudo, uma casa que foi testemunha de muitos dias de muito amor e felicidade.
Autores: André Silva; Daniela Rodrigues; Marta Mendes e Renata Braga
A página rasgada
Num dia primaveril, uma senhora e a sua filha entram na livraria "Centésima Página", também conhecida como "Casa Rolão", na Avenida Central, em Braga. É um belo edifício da primeira metade do século XVIII que a família Rolão, que se dedicava ao fabrico de sedas, encomendou ao arquiteto André Soares. Na fachada imponente, destacam-se quatro portas no piso térreo e quatro janelas de sacada no piso superior, com cantarias lavradas, em estilo rococó. A mãe e a filha entram de mão dada mas, quando a criança se apercebe que se encontra num local repleto de livros divididos em secções ao qual chamam livraria, a sua expressão facial muda drasticamente, perdendo a expressão de felicidade por passear com a mãe para manifestar aborrecimento e desilusão com o que via.
A mãe, interessada num livro que já tinha captado a sua atenção, diz à filha que se dirija à secção infantil para ver se gostaria de algum livro. Pelo caminho, a menina repara num livro com uma capa e lombada dourada que lhe suscita curiosidade; retirou-o da prateleira e começou a ler. O livro contava um romance, no século XVIII, entre dois jovens bracarenses: Maria Leonor e Tomás de Sousa.
"Em pleno verão de 1761, Maria Leonor, de família nobre, passeia com a mãe pela cidade de Braga e, de repente, cruza-se com um rapaz de pele morena, olhos profundos, castanho escuros e bem vestido. A troca de olhares revelou, de imediato, empatia e carinho, ao ponto de sorrirem um para o outro.
Leonor, uma rapariga loira com cabelo fortemente ondeado, olhos verdes, tom de pele dourado, aparência delicada e suave, era de uma família de destaque e de grande importância na sociedade. A sua família, conhecida pelo apelido "Bertiandos", tinha construído uma nova casa no século XVII que vinha sendo modificada ao longo do tempo. Era uma casa apalaçada com inúmeras e luxuosas divisões e com um jardim tão vasto que os olhos humanos não o alcançam por completo. Os pais de Leonor decidiram "inaugurar" as mais recentes modificações, convidando as famílias mais prestigiadas da cidade de Braga para um baile. A família preparou e enviou os convites.
Chegado o dia da inauguração, Leonor estava expectante com a possibilidade de, porventura, poder voltar a ver aquele rapaz que lhe despertara interesse e que, de certa forma, a atraíra. Pela sua aparência, devia pertencer a alguma família abastada de Braga e talvez estivesse na lista de convidados.
Durante a receção, os dois jovens chocam um com o outro. Tomás, com receio de a perder de novo, não desperdiça a oportunidade para a conhecer. Tentam arranjar assunto para conversarem, mas acabam por se atrapalhar num misto de vergonha e extrema timidez. Discretamente, como se tivessem combinado, ambos se dirigiram para um recanto do jardim, rodeado de camélias e com uma pequena fonte ao centro, para poderem estar mais à vontade. Mas, mal tinham começado a conversa, ouviram um barulho como se fosse um trovão..."
Em pleno século XXI
Sentada no chão da 100ª Página, a menina não estava muito contente com o rumo da história pois não passava de mais um clichê, cujo final era previsível. Com aborrecimento, e devido à sua reduzida idade, sem pensar e num impulso, arranca a página que dava continuidade à história e, ouvindo passos, guarda rapidamente o livro ficando com a página na mão. Nesse preciso momento, a mãe apareceu junto dela e disse-lhe que iam embora; num sobressalto, a menina agarra no primeiro livro que encontra e coloca lá dentro a página rasgada. De seguida, foi-se embora com a mãe sem se preocupar muito com o que acabara de fazer.
Entretanto com Tomás e Leonor...
De repente tudo muda. Na casa dos "Bertiandos", que viria a ficar conhecida como "Palácio dos Biscainhos", o jardim magnífico em que se encontravam Leonor e Tomás já não existia; o imenso calor de verão que se fazia sentir, era agora um dia fresco de primavera. As alterações do espaço eram evidentes: agora estavam num jardim mas completamente diferente, junto de uma espécie de pequena fonte. Apercebendo-se que algo se tinha passado, os dois jovens olham um para o outro como se tentassem encontrar a resposta ou explicação para o sucedido; estavam apreensivos, no entanto felizes por se encontrarem juntos.
- Mas ...o...o que aconteceu? - Perguntou Tomás.
- Onde estamos? - Questionou Leonor.
Como vamos sair daqui? - Disseram, em simultâneo, Tomás e Leonor.
Incrédulos, olharam em seu redor, e, numa tentativa de perceber onde estavam, iam descrevendo o que viam para ver se algum deles reconhecia o local.
- Atrás de nós está um jardim com uma diversidade plantas diferente do grande jardim dos Biscaínhos. A parte da frente da casa é bonita, revestida com típicos azulejos portugueses e uma varanda com características parecidas com as nossas casas. Para além disso, o jardim tem uma esplanada agradável, fresca, convidativa à leitura ou a convívios.
Decidiram entrar na casa cautelosamente, ao encontro do desconhecido. Ficaram perplexos com a quantidade e diversidade de livros que se encontravam nas prateleiras. O entusiasmo era tal, que decidiram folhear atentamente alguns livros. Como eram diferentes dos livros a que estavam habituados! - a textura da folha, o relevo, o tipo de letra... A funcionária, apercebendo-se de movimento (tendo em conta que não os viu entrar) e estranhando o jovem casal devido aos seus trajes e penteados insólitos, dirige-se aos dois dizendo:
- Precisam de alguma coisa? - perguntou com um tom um pouco rude.
Tomás, apercebendo-se do receio da companheira, segura firmemente a sua mão num gesto de proteção e encorajamento.
Retraídos, perguntaram:
- Onde estamos?
- Na "Centésima Página" ou "Casa Rolão", em Braga, ... - disse a funcionária, atenta às reações de ambos.
Leonor e Tomás olham um para o outro aliviados por estarem na mesma cidade, tendo em conta que poderiam estar num sítio mais longínquo. Hesitantes, perguntam:
- Pode dizer-nos a data de hoje? Em que ano estamos?
Com um tom desconfiado, e de certa forma admirada, a funcionária respondeu:
- 11 de maio de 2018.
Eles não esperavam ouvir aquela data, mas sim trezentos anos antes. Instala-se um silêncio hesitante entre os dois.
Entretanto, na rua, ao fazer o percurso até casa, a mãe da criança ia a refletir no livro que hesitou em comprar. Arrependida por não o ter feito, volta para trás com a filha para o adquirir.
De regresso à 100ª Página, a menina repara na figura e nas características "invulgares" de Leonor e Tomás. Não os reconhecendo de imediato, estranha o vestuário e associa, com alguma dúvida, as suas semelhanças às personagens do livro que anteriormente estivera a ler. Para ter a certeza das suas suspeitas, vai buscar o livro e volta a ler a passagem onde se descreve a aparência dos personagens. Extremamente chocada com a situação, vai falar com o jovem casal.
- Como se chamam? De onde vêm?
- Eu sou o Tomás, esta é a Leonor e vimos da Casa dos Biscainhos.
- Ah, vocês pertencem à minha história!
As duas personagens do romance, muito confusas e surpreendidas, perguntam:
- Qual história?! Mostra-nos!
A rapariga corre imediatamente para a estante e conta o que se passou, mostrando também a página rasgada. Eles perguntam o porquê de a ter rasgado e ela explica resumidamente:
- Pensava que era mais um romance "cor-de-rosa" característico e que, como todos os outros, iria acabar com a frase "E viveram felizes para sempre...". Sendo assim, não valeria a pena estar a lê-lo!...
Surpreendidos com o que acabaram de ouvir, Tomás e Leonor decidem reconstruir a história, tendo ainda uma leve esperança de que tudo pudesse voltar ao normal. Como era vontade de todos recolocar a história no seu devido lugar, principalmente para resolver, ou pelo menos minimizar, os estragos que aquele rasgar de página tinha provocado, procuram os três com afinco a misteriosa página.
Para ganhar mais tempo, a criança, propõe à mãe que lanche na cafetaria da 100ª Página ou então no jardim das traseiras; a mãe optou pela cafetaria e aproveitou para iniciar a leitura do livro.
A menina retoma a busca pela página, e depois de uma longa procura, quando a esperança já era escassa e quando já tinham sido vistos todos os livros da livraria, com a exceção de um, "O romance na Casa dos Biscaínhos", a menina desesperada, vai, numa última tentativa ver se a folha lá está. Quando vê que a página se encontra no livro, dá um grito de alegria. Tomás e Leonor correm para junto dela. Afinal de contas, a criança, devido ao susto e ao medo que a mãe lhe tinha provocado, acabou inadvertidamente por deixar a página no mesmo livro donde tinha sido rasgada. Juntos, os três tentam colar a página. Foi necessária muita precisão, minúcia e fita-cola para a colocar no seu devido lugar, de onde, aliás, nunca deveria ter saído.
Terminada a colagem, Tomás e Leonor, desolados e com permanentes incógnitas sobre a maneira como iriam sobreviver num mundo novo, vão andando pelo jardim para refletir e sentam-se junto à fonte. Maria Leonor, finalmente, ganha coragem e, apesar de muito hesitar, fixando os seus olhos verdes nos olhos castanhos de Tomás de Sousa, consegue confessar-lhe os seus sentimentos por ele. Mostrando o que lhe ia na alma, o rapaz acaricia de forma suave e deleitosa o rosto dela e num impulso, realiza o tão esperado desejo de a beijar. Repentinamente, uma súbita força, como se de um tornado se tratasse, sugou as duas personagens de volta para a história, regressando ao jardim da Casa dos Biscainhos, onde fora interrompido aquele que seria o início da história de amor de ambos. O amor e a união entre eles eram tão fortes que nem deram conta que voltaram ao jardim onde tudo começou.
A menina, essa, ficou com tanta curiosidade para saber o final da história que acabou por terminar a leitura do livro, ali mesmo, sentada no chão da 100ª Página. Os dois jovens ganharam mais proximidade devido à aventura que viveram, tornando assim a sua história de amor num conto tradicional que, tal como a menina previra, também acaba com a frase: "E viveram felizes para sempre!".
Autores: Ana Maria Sá; Gabriela Gomes e João Sousa
Correaria Moderna
A empatia
Era um dia especial para Carlos, talvez ele próprio não soubesse o quão especial esse dia viria a ser, muito menos que viesse a tornar-se o dia mais importante da sua vida.
Era o dia da corrida de cavalos, a mesma corrida a que o seu pai havia assistido com sua idade.
Carlos herdara do seu pai a paixão por cavalos, um homem de sucesso, que em toda a sua vida havia amado a arte equestre e, como consequência, havia sido o dono da maior loja de correaria da cidade.
Infelizmente, o pai de Carlos falecera quando este era ainda muito novo, obrigando a um fecho temporário da loja.
A mãe de Carlos, muito carinhosa e
trabalhadora, fazia tudo o que estava ao seu alcance para esboçar sempre um
sorriso ao seu bem mais precioso. Ela sabia que, assim como seu marido, o filho
adorava os fortes animais de cascos resistentes. Carlos sempre pedia à mãe para
ir ver a corrida de cavalos que decorria mensalmente, em Braga, na sua cidade.
A mãe trabalhava dia e noite para que o filho tivesse sempre comida na mesa,
crescesse saudável e forte, mas o dinheiro não chegava para coisas "supérfluas"
... Um dia apercebendo-se do olhar cada vez mais triste do filho, decidiu-se: trabalhou
arduamente dia e noite e, já exausta, comprou com as poupanças que havia
conseguido, um bilhete para a corrida de cavalos pela qual o filho tanto
ansiava.
O dia chegara. Carlos vestiu o seu melhor traje e com o coração aos saltos,
encontrou-se no recinto das corridas como tantas vezes tinha imaginado.
Eram múltiplos os sentimentos que experienciava. Carlos observou calmamente
todas as atividades que decorreram, apreciou todos os pormenores ligados à
cavalaria, inclusive as corridas onde participaram os mais nobres cavalos da
região.
Tudo deliciava Carlos; finalmente, a admiração que sentia por aqueles animais ia ser saciada. Foi também nesse momento que Carlos se apercebeu de que a arte equestre marcaria o seu destino, e que queria intensamente reabrir a loja do seu querido pai. Tudo parecia encaixar na perfeição.
Carlos estava satisfeito por descobrir a sua verdadeira paixão e o seu rumo. Entretanto, avistou uma rapariga cuja imagem rapidamente fixou mentalmente. Era o tipo que idealizava e aparentava cumprir todos os requisitos que ele procurava.
Por
momentos, Carlos voltou a sentir-se perdido. Esquecendo por breves instantes os
cavalos, deixou-se arrebatar pelo seu novo interesse.
Rapidamente, chegou perto da menina
que se colocara na bancada oposta à de Carlos. De face corada de emoção,
resolveu-se a dirigir a palavra à jovem que estava debruçada sobre as grades
que separavam a tribuna do organizador da corrida. Até os olhos lhe fugiam. Ao
lado dela, encontrava-se um senhor, provavelmente seu pai, equipado a rigor
para a situação. Sem grandes demoras, Carlos imaginou um diálogo e dirigiu-lhe
então a palavra. Inicialmente, a rapariga expressou um olhar atrapalhado,
envergonhado, mas rapidamente lhe respondeu e estabeleceu uma conversa com o
nosso jovem cavalheiro. Conversaram algum tempo e Carlos rapidamente percebeu
que tinha mais em comum com "a sua amada" do que os meros olhares iniciais.
Desde o início da conversa, que o coração de Carlos ouvia atentamente as suas palavras. Era como estivesse a viver uma história de amor daquelas bastante lamechas, em que o rapaz se apaixona à primeira vista pela menina.
Com todos estes acontecimentos, o sonho de reabilitar a velha loja de correaria do seu pai tinha ficado um pouco esquecido na sua mente - Carlos tinha agora um novo motivo para ser feliz.
As conversas tomavam proporções que tanto Carlos como a jovem não achavam sequer ser possível. Nessa altura, já ambos sabiam que eram feitos um para o outro. A evolução da sua relação de amizade ao longo do tempo foi aumentando: ambos partilhavam os mesmos gostos e os mesmos desejos. Tudo parecia promissor. Era algo único, seria uma das primeiras vezes que o amor pelos cavalos conseguira juntar duas pessoas.
Carlos, que desde cedo tinha tido a vida muito dificultada, sentia-se finalmente feliz e realizado, porém faltava algo mais, algo para conseguir alcançar toda a felicidade com que sempre sonhara. Algo que lhe eriçava de emoção os cabelos encaracolados.
Nessa mesma noite, Carlos pensou e pensou. "Dialogara" a noite inteira com o retrato do seu falecido pai, que mantinha em cima da sua mesinha de cabeceira, desde sua morte.
No dia seguinte, com as forças que lhe restavam, que não eram muitas, pois acabara de se libertar de uma aula de Português, onde estudara Os Lusíadas, Carlos encontrou-se com a sua amada, como era já habitual. Dominado por um turbilhão de sentimentos, finalmente, ganhou coragem e, de joelhos, fez a declaração em alta voz: "Eu amo-te e sempre te amarei!". Sem perder tempo, Carlos partilhou todos os seus sonhos e ambições e, pela milionésima vez, contou-lhe a história da loja que o seu pai havia tido em tempos. Porém, desta vez, com um objetivo diferente. Carlos propôs à sua amada que juntos reerguessem o negócio de família, uma vez que ambos adoravam cavalos, e esses animais significavam tanto para eles. Após um longo discurso que a sua ouvinte escutara atentamente, as lágrimas correram pela face dela e, sem demora, aceitou o novo desafio sorrindo e contemplando o amor da sua vida.
A Correaria Moderna que tinha sido fundada pelo seu pai, viria a erguer-se novamente alguns anos depois, melhor e mais forte, desta vez, sob o comando de Carlos e da sua mulher.
O negócio expandiu, integrando agora novas realidades, favorecendo tanto os que ousavam praticar o desporto relacionado aos nobres animais de cascos duros, até àqueles que simplesmente passavam na loja para comprar uma carteira ou uma mala de couro autêntico, de elevada qualidade.
Novos projetos, novos produtos surgiram desde a fabricação de material equestre, bolas de futebol e acessórios diversificados. Todo e qualquer desejo do cliente, Carlos e sua mulher realizam com dedicação e profissionalismo. Com o passar do tempo, como se por pura magia, um menino pequeno, mas com grandes ambições, transformou a loja antiga de seu pai naquela que hoje conhecemos como a Correaria Moderna, mais conhecida pela loja do Cavalinho Branco.
Autores: Daniel Horta; Diogo Pires e Diogo Duarte
Braga, cidade com história e amor
No mês de junho de 1965, uma jovem, de nome Amélia, de olhos verdes, cabelos loiros e bastante elegante, decidiu, com os seus amigos, ir conhecer as festas populares do S. João, em Braga. Desta forma, poderiam, além de aproveitar para conhecer os festejos em honra do santo, matar as saudades dos amigos que tinham de Braga e que já não viam há bastante tempo.
No dia de S. João, o grupo rumou à "cidade dos arcebispos", onde se encontrou com os amigos bracarenses, entre os quais Hélder, um rapaz encantador e bem constituído. Como tinha passado muito tempo desde o último encontro, Hélder apercebeu-se de que Amélia estava diferente, mais bonita e mais interessante pelo que passou a noite sempre ao seu lado. Acabada a festa, Amélia e os amigos que a tinham acompanhado regressaram a Castelo Branco, confessando que tinham gostado muito da cidade e que iriam voltar logo que possível.
O tempo ia passando, mas Hélder não esquecia Amélia, o seu interesse por ela não diminuía, antes pelo contrário. Sentia necessidade de lhe falar, de comunicar com ela e, tomando coragem, enviou-lhe uma carta onde exprimia os seus sentimentos e a convidava a voltar a Braga para que ele pudesse mostrar-lhe melhor a cidade.
O primeiro impulso de Amélia foi aceitar o convite, porém não o pôde fazer por causa das aulas que já tinham começado. No entanto, os dois jovens foram comunicando e, mal ela acabou o secundário, deslocou-se a Braga, considerando que, para além de ficar a conhecer alguns pontos de interesse, também poderia ver se lhe agradaria fazer os seus estudos superiores na Universidade do Minho.
Hélder esperava ansiosamente a chegada de Amélia, pois ainda não conseguia acreditar que iria poder passar alguns dias com a rapariga dos seus sonhos. Quando a foi buscar à estação de comboios, estava muito nervoso, questionando-se "Será que ela vai gostar de mim, como eu gosto dela?"
Começaram a fazer a visita à cidade, no dia seguinte. O primeiro local escolhido por Hélder foi a Correaria Moderna. Resumidamente, contou a história daquela loja: fora criada há cerca de 140 anos e, inicialmente, apenas fabricava bolas para todos os clubes de futebol nacionais. Entretanto, a loja foi-se especializando em material de equitação e de marroquinaria. Enquanto falava, Hélder mostrava a Amélia vários produtos, desde roupa para equitação, selas próprias para a tourada à portuguesa, selins, material de caça e ainda a oficina onde tudo isto era produzido. Amélia ficou encantada ao ver as máquinas antigas que ainda estão a ser usadas, pois os proprietários gostam de manter a tradição no processo de manufaturação dos seus artigos e negam-se a ser absorvidos pela globalização que torna os produtos todos iguais e sem identidade própria.
Continuando o passeio pela velha Bracara Augusta, dirigiram-se ao Museu Nogueira da Silva onde Hélder contou a história de amor dos seus pais, afirmando que tinha sido naqueles jardins que ambos se tinham conhecido durante uma visita de estudo das escolas que frequentavam. Como Amélia adorou o jardim, o rapaz decidiu levá-la a conhecer o Museu dos Biscainhos e o seu magnífico jardim. Embora tenha gostado de conhecer o interior daquele palácio barroco, a jovem ficou encantada com a diversidade de espécies vegetais do jardim. Como tinha um grande interesse pela área da biologia, decidiu "presentear" o seu companheiro com algum do seu conhecimento e falou-lhe, então do tulipeiro, originário da Virgínia, que deve o seu nome às suas flores em forma de tulipa, das japoneiras que, como o nome indica, são originárias do Japão, das magnólias de flores grandes e exuberantes .... Hélder estava cada vez mais fascinado por Amélia.
Como a fome já apertava, ele decidiu que o lanche seria nas Frigideiras do Cantinho, um café fundado em 1796 e que é o estabelecimento de restauração mais antigo da cidade. A casa é conhecida pelas suas famosas frigideiras, uma empada de carne e massa folhada cuja receita centenária passa de geração em geração mas não é divulgada ao público. Ambos confirmaram a justiça da fama de que este petisco goza. Sabendo da história da casa, depois do lanche, Hélder pediu ao dono do café que lhes mostrasse melhor o local. Então, puderam visitar as ruínas, que são visíveis através do vidro que reveste o chão, mesmo por baixo da área onde os clientes são servidos e que são importantes achados arqueológicos da época romana (séc. II e III) quando Braga era conhecida por Bracara Augusta. Ouviram da boca do proprietário toda a história do edifício.
Tinha sido um dia fantástico e Amélia estava grata a Hélder por ter sido o seu cicerone na cidade. No entanto, este era apenas um dos muitos dias que iriam passar juntos. Hoje, decorridos já sete anos, continuam juntos e a pensar em casamento que gostariam de realizar no belo jardim do Museu dos Biscainhos.
O que seria dos museus, dos jardins e até das casas de comércio tradicional se não existissem olhos curiosos e amantes da História?
Autores: Ana Rita Duarte; Diana Silva e Mafalda Barbosa
ASAS E RAÍZES
Francisco
vivia numa VW Kombi. Desde jovem que tinha o sonho de se aventurar pelos
diversos países e culturas. O mundo era coisinha
pouca para ele e já conhecia muitos países. Francisco amava acordar, poder
fazer o seu exercício físico ao ar livre enquanto arrumava os seus pensamentos
ensonados e, mais a noitinha, sentar-se, num banco de madeira, acender umas canhotas,
e pumba! Guitarra ao colo, garganta
pronta a rasgar e, claro, a boa companhia de um charuto cubano e de um whisky
irlandês.
Francisco era um músico conhecido pela sua versatilidade: já tinha composto
desde metal, a jazz, a blues, a gipsy jazz sendo algumas das suas
inspirações Louis Armstrong, Frank Sinatra, Django Reindhart, Cab
Calloway,Buddy Guy,... nada o "babava" mais do que pegar na sua guitarra
elétrica e começar a criar energia e partilhá-la com quem o ouvisse.
Numa
tarde do ano de 1986, preso dentro da Kombi devido ao mau tempo, lia o livro "The brothers Karamazov" e desviou o
olhar para um mapa que estava preso num
quadro de cortiça onde as muitas agulhas espalhadas pelo mapa
inteiro asinalavam os países visitados.
Pensou que nunca tinha ido a Portugal e logo que pôde, guiado pela enorme
vontade de conhecer o mundo, dirigiu-se a Portugal.
Depois de algumas semanas a atravessar a Europa, finalmente assentou os
pés em terra portuguesa, especificamente
Lisboa, e decidiu cantar na rua como sempre fazia. Retirou a sua guitarra
Gibson Firebird da Kombi, pousou a pedalboard,
ligou o amplificador e o microfone e, depois de alguns minutos a cantar,
deparou-se com um cenário muito diferente daquele a que já estava acostumado:
ninguém prestava atenção ou parava para o ouvir. Intrigado, pensando que
poderia ser da música, resolveu tocar "Sultans of Swing ", dos Dire Straits", e
deparou-se com a mesma cena. Desmotivado e um pouco desiludido, voltou para a
sua KW para descansar e pensou "Talvez seja da hora, afinal de contas são 18h...
já estão cansados" e decidiu na próxima manhã tentar outra vez. A situação
repetiu-se e voltou a repetir-se, e outra vez, não resultou. Desapontado com
Lisboa, tomou rumo para Braga, achando que lá iria ter mais sorte.
Estacionando a sua casa ambulante, retomou o ritual de retirar o material
musical e desta vez decidiu tocar "Immigrant Song", de Led Zeppelin" e, logo
uma enorme multidão se formou à sua volta e, algures na multidão estava Carlos,
um grande fã de Francisco e um mestre na arte da Correaria. Após o mini
concerto e já com as palmas das mãos bastantes vermelhas e dormentes de tanto
aplaudir, Carlos, emocionado, foi ter com Francisco, contando-lhe
entusiasmadamente sobre a sua coleção de CD's de TODOS os álbuns de Francisco,
desde edições limitadas, a edições raras, e a CD's de diamante. Como a conversa
fluía como se já se conhecessem de longa data e achando a situação oportuna,
Carlos perguntou a Francisco se ele gostaria de ir jantar a sua casa. Já se fazia
bastante tarde e, por isso, Francisco aceitou. Voltou à Kombi, para tomar um
banho e vestiu algo mais formal para ir jantar a casa de Carlos. Francisco
nunca fazia este tipo de coisas, mas como estava bastante feliz com a multidão
que o aplaudiu, sobretudo depois do que acontecera em Lisboa e porque achou
Carlos um homem de confiança e, acima de tudo, era um grande fã seu o que já
não acontecia desde que tinha parado de fazer turnées, decidiu deixar a bola rolar.
Dirigiu-se para a casa de Carlos, que se situava na Rua do Chãos e que,
curiosamente, tinha uma loja chamada "Correaria Moderna" no andar de baixo, e
deparou-se com algo que nunca vira: no passeio, um cavalo bastante grande,
branco, engraçado e já a acusar uma longa existência, fazia publicidade mesmo à
porta da loja. Tocou à campainha que parecia ser partilhada com a da loja e
acendeu-se uma luz ao fundo da loja. Carlos apareceu com um grande sorriso,
como as crianças quando vão ao parque, oferecendo-lhe a melhor hospitalidade
possível. Sentando-se à mesa com a família de Carlos, Francisco questionou-o
sobre a sua vida, "O que fazia? Como vivera a sua vida? Qual a sua
profissão?...". Carlos desatou a contar sobre seu pai, um senhor amante de
cavalos que, sentindo a necessidade de uma loja perto para comprar equipamento
diversificado de equitação, decidiu abrir uma loja no andar de baixo de sua
casa. Carlos crescera a ver o pai a trabalhar na oficina, rapidamente lhe
ganhou o jeito e, em menos de nada, estava lado a lado com o pai a confecionar
selas, botas, coletes, carroças,... O negócio foi crescendo, pois naquela
altura a procura de material de equitação era bastante alta, a quantidade de
pessoas a trabalhar na loja também foi aumentando, chegando a ter 40 pessoas a
trabalhar diariamente na oficina. Infelizmente, passados alguns anos, o pai de
Carlos foi enfraquecendo e ficando debilitado para o ajudar na loja pelo que
Carlos passou a ser o gerente da maior loja de correaria de Portugal. Alguns
anos depois, o pai faleceu, deixando o património todo ao seu filho mais velho,
Carlos.
Carlos explicou a Francisco que a sua vida tinha sido toda vivida naquela loja
e que para ele, a loja era a sua vida. Lá conhecera a sua maravilhosa esposa,
Deolinda Palitinho, e fora lá que, da mesma forma como seu pai fizera com ele,
criara os seus filhos. Francisco estava fascinado com o que acabava de ouvir e
deu consigo a refletir sobre a diversidade daquilo que nos faz felizes. Ele e
Carlos partilhavam as mesmas preferências musicais, mas, enquanto ele,
Francisco, não conseguia ficar muito tempo num mesmo sítio e sentia a ânsia da
aventura, de correr atrás do desconhecido, Carlos sentia prazer em dar
continuidade à tradição. Um sentia o apelo das asas, outro o apelo das raízes,
mas ambos eram felizes com a opção que tinham tomado para as suas vidas. E o
facto é que o mundo precisa de ambos.
Elogiando o maravilhoso cozido à portuguesa de Deolinda e apertando a mão firmemente a Carlos, Francisco desejou um resto de boa noite e seguiu para a sua Kombi onde ficou a descansar o resto da noite. No dia seguinte, preso dentro da Kombi devido ao mau tempo, lia o livro "The brothers Karamazov" ", desviou o olhar para um mapa que estava preso num quadro de cortiça e, apesar de ter muitas agulhas espalhadas pelo mapa inteiro a indicar os países que já visitara, lá estava mais um onde ele nunca tinha ido: a Islândia.
Autor: João Peixoto
A Homenagem
Uma semana havia passado desde que Nogueira da Silva ficara viúvo. O falecimento da sua mulher, Maria Eugénia, deixara-o desolado, sem saber que rumo tomar; tentava de tudo para se abstrair da morte da sua adorada esposa, mas estava inconsolável, apenas queria ficar sozinho, com os seus pensamentos. O tempo passava e, como não havia alteração, os amigos insistiam em levá-lo a festas para o tentar animar. Para além disso, a viuvez de um cavalheiro tão distinto e de tão boa posição social despertava a atenção de várias senhoras "casadoiras" que lhe escreviam cartas, propondo-se a ajudá-lo a combater a solidão. Estas cartas não tinham o efeito pretendido, pois ele era muito religioso e não se perdoaria se alguma vez "traísse" a sua falecida esposa que ainda ocupava todo o espaço do seu coração.
Meses e meses passaram e Nogueira da Silva continuava muito abatido, precisava de companhia, mas os seus pensamentos remetiam-no sempre a tempos passados, tempos felizes. Tinha a consciência que não poderia arriscar-se a sofrer outro desgosto amoroso, descartando assim qualquer hipótese de um novo relacionamento. Precisava de uma ocupação, um novo passatempo, "- Mas o que poderia arranjar para se distrair?" - perguntou aos seus criados. O primeiro criado afirmou que ele deveria adotar um cão. "- Humm, não acho que seja uma boa ideia, porque dois dos meus funcionários são alérgicos a cães e não os quero substituir."-refutou Nogueira da Silva. "- Talvez o senhor possa considerar um outro animal ... um coelho é muito fácil de cuidar e é muito dócil.". "- De facto não é uma má ideia, no entanto acho que o coelho fugiria muito facilmente ...". Um criado que o acompanhara desde infância disse-lhe : "- Na sua juventude, o senhor costumava gostar tanto de cavalos, passava o dia todo a cavalgar, a estudá-los e a fazer desenhos deles, talvez não fosse má ideia adquirir um cavalo ...". "- Excelente ideia! De facto, sempre apreciei cavalos, eles podem servir de companhia e talvez até me distraía um pouco do meu desgosto. Mas onde poderei obter um cavalo?". "- Há uma loja cá em Braga, a Correaria Moderna, que é uma das mais conhecidas a nível de cavalos e considerada por muitos como a melhor do país. Gostaria de marcar uma reunião com os proprietários? -perguntou o criado. "- Conhece os proprietários do estabelecimento?!" "Sim, são pessoas distintas e de um trato fora do comum; são, sem dúvida, boas pessoas. Sei isto porque eles são bastante amigos dos meus pais e em tempos de revolta e de desespero foram eles que nos acolheram e cuidaram de nós.". "-Parecem pessoas de grande carisma, definitivamente muito nobres; agora, estou ainda mais interessado em comprar este tal cavalo!"
Três dias depois, Nogueira da Silva encontrou-se com os proprietários da Correaria. Após uma longa conversa, indicaram-lhe um criador de cavalos, era dinamarquês e tinha grande fama pelos excelentes cavalos que criava, o que despertou imensa atenção a Nogueira da Silva. Depois de uma longa deliberação, decidiu aceitar a proposta e comprar um cavalo ao referido criador. Como há muito tempo não acontecia, estava entusiasmado e ansioso por receber o cavalo e voltar a praticar equitação.
Algum tempo depois, a Correaria Moderna enviou-lhe uma carta, informando que o seu cavalo já chegara. Esta notícia, como esperado, deixou Nogueira da Silva numa grande expectativa pelo que, nesse mesmo dia, decidiu encontrar-se com os proprietários da Correaria que estavam sempre disponíveis para ele.
Quando chegou ao local, deparou-se com um belo e altivo cavalo à porta da loja. Correu até ele e afagou-o; era branco como a neve, o pelo era macio e já tinha o selim colocado. Os proprietários da Correaria saíram da loja e vieram cumprimentá-lo. Nogueira da Silva voltou para casa extremamente satisfeito com a sua nova aquisição.
Estava tão satisfeito com o serviço prestado pela Correaria que decidiu ir lá no dia seguinte e manifestar a sua gratidão, convidando os donos para uma festa privada no jardim de sua casa, convite que foi aceite com todo o agrado.
Durante a festa, conversaram bastante sobre cavalos e, como a conversa fluía naturalmente, os proprietários da Correaria Moderna convidaram-no a participar na mais famosa corrida de cavalos do país, dizendo que se encarregavam de o treinar e ao cavalo para esta prova. A prova realizava-se no dia 6 agosto, por volta das 11:35, ou seja, estavam a cerca de um mês da festa. Nogueira da Silva aceitou o convite de forma entusiástica e, nos dias que se seguiram, cumpriu um plano de treino bastante intenso que o levaria, a si e ao seu cavalo, a um extremo cansaço, mas que estreitou os laços entre ambos.
Chegou o dia da corrida, o momento para o qual todas estas ações convergiam, o momento da verdade. Foi uma corrida empolgante e renhida até ao fim, mas Nogueira da Silva conseguiu vencer, doando todo o dinheiro do prémio à Correaria Moderna como forma de gratidão.
Passaram-se os anos e Nogueira da Silva, que manteve sempre relações próximas com os donos da Correaria Moderna, adoeceu, tinha uma doença raríssima e sem cura. Sabia que ia morrer e, como não tinha filhos, decidiu doar a casa, onde vivera com Maria Eugénia, à Universidade do Minho, que acabara de ser criada, e a Casa da Sorte, que ele fundara, doou-a aos funcionários. Às pessoas que nunca o abandonaram, que sempre estiveram presentes e lhe manifestaram a sua amizade, os donos da Correaria Moderna, deixou parte da sua fortuna.
Faz hoje um ano que Nogueira da Silva faleceu. O dia da sua morte ficará para sempre como um dia negro da história de Braga e de Portugal, e como homenagem nós, atuais donos da Correaria Moderna, colocamos, todos os dias, na frente da nossa loja, um cavalo branco, igual ao que foi comprado por Nogueira da Silva.
Autores: António Gabriel; Ricardo Cristo e Simão Mateus
Fonte do Ídolo
O AMOR PROIBIDO DE CONSTANÇA
Quero contar-vos a história da minha vida. Chamo-me Constança e, na altura dos factos, tinha cerca de 20 anos e vivia com os meus pais, os condes Afonso e Beatriz de Bertiandos, num palácio conhecido em Braga, o palácio era enorme, talvez o maior palácio de Braga, com grande número de divisões: átrio, escadaria azulejada, sala de entrada, salão nobre, capela, salão de música e de jogos, sala de jantar, claustro, cozinha, cavalariças, entre outras, sendo rematado por um grande jardim externo.
Numa tarde de Primavera, dia 21 de abril, estava a preparar-me para um jantar que iria ser muito importante para o meu futuro, mas mais para a frente saberão do que se tratará...
- Dilda! Podes chegar aqui por favor?
Dilda era a minha dama de companhia, ela ajudava-me em tudo, a vestir, a pentear, fazia até o papel de conselheira, era uma segunda mãe para mim.
-Sim, querida, de que precisas?
-Ajudas-me a escolher o vestido ideal para logo?
Enquanto escolhíamos o vestido, idealizávamos como seria o duque.
Duque?! Perguntam vocês; sim ia jantar com o escolhido pelos meus pais para se casar comigo e não conseguia parar de imaginar como ele seria.
-Como achas que ele será, Dilda? Imagino um rapaz, lindo, educado, gentil ... achas que ele terá olhos azuis? Castanhos? Será loiro, ou um moreno charmoso?
-E se ele for totalmente o contrário do que estás a imaginar? Feio, arrogante, sem classe e desinteressante...
Escolhida a roupa, segui para o Salão de Música e de Jogos para a minha aula de piano. Depois da aula fui ler um livro para o jardim. O jardim do palácio era o meu espaço favorito: flores variadas e coloridas em todas as épocas do ano, algumas árvores exóticas, e até uma casa na árvore que eu frequentava para dedicar à leitura. Todas as manhãs, passeava no jardim para respirar o ar puro cheio de aromas que a natureza envolvente me oferecia. Ali, sentia um grande conforto interior.
Nesse dia, a leitura foi interrompida por Zacarias que se dirigia às cavalariças com os nossos cavalos (o meu pai gostava muito de cavalos).
-Menina já viu as horas? Já deveria estar nos seus aposentos.
Percebi que já estava a anoitecer e apressei-me. Dilda já deveria estar à minha espera.
-Despacha-te, Constança, já estás atrasada!
Apressadamente coloquei o vestido e os sapatos enquanto Dilda me fazia um lindo penteado.
Ouvi a carruagem a chegar e desci, para receber o duque juntamente com os meus pais.
A minha mãe, a condessa Beatriz, era uma mulher linda, com um forte cabelo ruivo ondulado e olhos verdes; o meu pai, elegante também, tinha um olhar intenso, cor mel, e um cabelo liso escuro. Mal abriram o portão, senti um nervosinho, pois estava curiosíssima para ver como seria o duque.
Entrou, apresentou-se e fixou o seu olhar em mim. Fisicamente era alto, tinha os olhos verdes como esmeraldas e o cabelo era castanho claro; chamava-se Filipe e eu adorava aquele nome.
Já na sala de lazer, como um cavalheiro devia ser, gentilmente, ofereceu-me a cadeira para eu me sentar. Agradeci-lhe, com um leve gesto de cabeça.
Seguidamente, o duque sentou-se também com uma postura formal. Estivemos a falar, mas ... a sua conversa não me despertou interesse. Comecei a perceber que tínhamos personalidades distintas, ele só falava de si mesmo e adorava engrandecer os seus bens e o império do pai.
-Ao longo do tempo, o meu pai foi construindo uma vasta fortuna devido aos negócios que estabeleceu na Índia e nos novos mundos.
-Já vi que a minha filha e os meus futuros netos estão bem entregues ... - sussurrou o meu pai ao ouvido da minha mãe.
Depois de um curto diálogo, pedimos licença para nos levantarmos, eu e Filipe. Fomos passear para o jardim. Como acompanhava muitas vezes o seu pai de negócios, Filipe tinha aprendido a gostar de ritmos musicais diferentes, mais modernos. Sabendo que uma banda que apreciava ia tocar nessa noite, no café Vianna, convidou-me a acompanhá-lo. Os meus pais ficaram algo constrangidos, mas, depois do jantar, chamaram Zacarias para nos levar.
Era a primeira vez que entrava naquele café pois raramente saía de casa. Era amplo, repleto de espelhos de talha dourada nas paredes que os sofás vermelhos e os reposteiros punham em destaque; era um espaço agradável frequentado por muitos jovens. Também havia uma sala de jogos na parte de trás. Sentamo-nos, fomos bem recebidos e fizemos o pedido...
Para não variar, Filipe continuava a gabar-se ... então, farta da sua conversa, disse-lhe que ia apanhar ar. No momento em que abri a porta, um dos músicos esbarrou comigo e houve uma troca de olhares difícil de descrever e uma química inexplicável ...
Quando voltei para dentro, a sala estava na penumbra e os músicos tocavam algo romântico pelo que percebi. Já era tarde e decidimos voltar; Filipe deixou-me no palácio e despedimo-nos.
Mal me deitei, não parei de pensar no músico. Dilda apareceu para saber como tinha corrido a noite.
- Então, menina, como correu o encontro?
-Podia ter corrido melhor... Filipe não é, com toda a certeza, a pessoa com quem quero passar a minha vida!
-Mas ... essa cara ..., vejo que estás muito contente! Afinal, o que se passou?
-Ah... não te escapa nada, não é?
-Conta-me lá o motivo dessa felicidade.
Resumidamente, contei-lhe o que se passara:
-Senti algo inexplicável quando me esbarrei com um dos músicos: era lindo, de cor negra, um olhar simpático, possuía um sorriso franco, cativante que me deixou sem palavras!
-Ai, ai! Os teus pais não vão gostar da decisão, menina Constança ...Mas, agora dorme que amanhã vão ser um dia longo. Boa noite!
-Boa noite, Dilda.
No dia seguinte, levantei-me, vesti-me, prendi os meus longos cabelos louros e dirigi-me à sala para tomar o pequeno-almoço. Entretanto chegaram os meus pais e conversei com eles acerca da desilusão que o duque tinha sido para mim e que não sentira qualquer afinidade por ele. O meu pai não aceitou muito bem, porém a minha mãe compreendeu perfeitamente. Nesse dia à noite, não resisti à tentação e, sem os meus pais saberem, fui ao Café Vianna para o ver. No fim do concerto, trocamos olhares e ele decidiu sentar-se a meu lado para conversarmos.
- Olá, por aqui de novo? Desde já, peço desculpa do nosso pequeno "encontrão"...
Rimos, descontraidamente.
- Gostei bastante das vossas músicas e decidi voltar.
-Já agora, como se chama?
- Constança ... e o "senhor distraído"?
-Ah! Ah! - Gargalhou - Chamo-me Inácio. Não veio com o seu namorado?
- Qual namorado?!
- Aquele que estava consigo ontem à noite.
-Ah! Sei a quem se refere, mas ele não é meu namorado... para lhe contar a verdade, estávamos a ter um encontro, que foi decidido pelos meus pais.
- Mas, então não pretende ficar com ele?
Expliquei-lhe o porquê de não o querer para noivo. Falamos durante algum tempo e, como já estava a ficar tarde, decidi regressar e Inácio ofereceu-se para me acompanhar até casa.
Quando chegámos, despedimo-nos e entrei. Voltei-me para trás quando ouvi Inácio chamar-me.
-Amanhã, podemos encontrar-nos na Fonte do Ídolo?
-Claro que sim ... então, até amanhã!
-Boa noite!
Agradeci, sorri-lhe e voltei para o palácio. Subi as escadas e dirigi-me ao quarto para dormir; tinha sido uma noite cheia de emoções. Na manhã seguinte, fiz a minha rotina habitual, mas, de tarde, decidi praticar mais tempo de piano, sentia-me inspirada para a música! Passado algum tempo, jantei, e porque não podia estar sempre a sair (era uma jovem condessa e tinha que ter um comportamento como tal), pedi a Dilda ajuda para "fugir", sem que os meus pais notassem. Mais uma vez, fui ter com ele.
Inácio já se encontrava na Fonte do Ídolo. A lua iluminava o recinto; conversamos algum tempo e, inesperadamente, ele foi buscar a viola que estava por detrás da fonte e fez-me uma serenata. Foi um momento encantador: Inácio, a serenata, o silêncio daquele monumento milenar em pedra ... Mas eu tinha que regressar. Decidimos ir para o meu jardim, entramos pelas traseiras e ficamos lá mais um pouco, até que me apercebi que Zacarias estava a colocar os cavalos nas cavalariças e podia apanhar-nos ali. Então, Inácio disse que era melhor retirar-se e ... de repente, só me lembro de sentir aqueles lindos lábios. Beijamo-nos e, a partir daquele beijo, percebi que era ele que eu queria para o meu futuro. Fui-me deitar e não parei de pensar nos acontecimentos daquela noite; cada vez tinha mais vontade de estar com ele.
A partir desse dia, continuamos a encontrar-nos e, numa noite de verão, ele convidou-me para ir assistir a mais um concerto que ia fazer no Café Vianna. Dedicou-me uma música juntamente com asua banda e a mascote (a mascote era um boneco que o Café Vianna adotou e com a qual procurava homenagear a banda: era de cor negra e vestia igual aos membros da banda de Inácio). No final, a banda parou e Inácio pediu-me que chegasse mais perto e ajoelhou-se para pedir a minha mão. Confusa, saí a correr; Inácio veio atrás de mim, pegou-me no braço, abraçou-me e nesse momento, não contive as minhas lágrimas.
-Desculpa, os meus pais não vão aceitar esta relação. Não devíamos ter continuado com estes encontros ....
-Constança, eu amo-te! Independentemente de os teus pais não aceitarem a nossa relação, nós temos de tentar.
- Tens razão. Quando estiver preparada, falo com os meus pais, até lá mantemos a relação em segredo...
Inácio concordou e estivemos dois meses assim.
No dia 15 de setembro, no meu aniversário, Inácio fez-me uma visita, à noite, no jardim do palácio. Zacarias espiou-me e contou o que tinha visto aos meus pais, mas eu só o soube no dia a seguir. Na manhã seguinte, os meus pais disseram que queriam falar comigo. Ambos estavam com sérias e fortes expressões, o que me fez perceber logo do que se tratava. Nesse momento, parecia que o meu mundo tinha desabado. Tive uma forte discussão com eles, o meu pai estava totalmente em desacordo com a nossa relação.
- O que achas que vão pensar de nós ao ver a filha do conde de Bertiandos com alguém que nem pertence sequer à burguesia? Para além do mais, é negro! Onde já se viu tal disparate?
- Pai, o senhor está a ser injusto! Só quer saber do que pensam acerca de si e não quer saber da felicidade da sua única filha! Acha isso correto? Quer ver-me casada com alguém que me deixe infeliz? Parece que sim...
Saí dali a correr e fui chorar para o meu quarto. Ao jantar, já estávamos mais calmos e pedi-lhe uma oportunidade para conhecer Zacarias. Podia ser que mudasse a sua opinião acerca dele e que se apercebesse do quanto ele me fazia feliz. O meu pai nem me respondeu, estava muito zangado comigo.
Andei uma semana completamente desolada, sem chão, não falava com ninguém, nem mesmo com Dilda. Já não passeava de manhã no jardim para respirar o ar puro da natureza e quando olhava pela janela ainda me lembrava do local onde estivera com Inácio. Não parava de pensar nele, os nossos momentos não me saíam do pensamento, estava cheia de saudades, mas o que me entristecia mais era o facto de o meu pai não querer saber da minha felicidade e estar apenas preocupado com o que os outros iriam pensar. Evidentemente, o meu pai reparou que eu andava bastante triste e, um dia, apareceu no meu quarto para conversarmos.
- Bom dia, filha, podemos conversar?
- Se for por um bom motivo, sim... - disse eu, desinteressada.
- Reparei que tens andado muito em baixo e penso que possa ser pela ausência de Inácio... Estive a pensar bastante e vou dar-te a oportunidade de trazeres Inácio cá a casa para o conhecer.
- Muito obrigado, pai, vai adorá-lo. Tenho a certeza!
Parece que o meu sorriso contagiou até o ambiente ao meu redor, um sol nasceu no meu quarto, desci as escadas e pedi a Zacarias que me levasse à cidade para contactar com Inácio e convidei-o para jantar em casa com os meus pais. Ele ficou muito contente.
Nessa noite, fui eu própria abrir o portão a Inácio. Ele estava lindo, com um fato azul escuro, camisa e borboleta branca a sobressair. Abracei-o de imediato. Seguimos para a sala de jantar, apresentei-o aos meus pais e sentamo-nos todos. A conversa estava a fluir muito bem sobre viagens, política, música ... o meu pai estava a adorá-lo (tal como eu tinha previsto), até já estavam às gargalhadas! Os meus pais gostaram bastante dele e perceberam que era um bom partido para mim.
Passado cerca de um ano casámos e os meus pais não podiam estar mais felizes ao ver-me feliz também. Hoje temos dois filhos lindos, a Leonor e o Dinis, ambos bastante parecidos com os avós paternos e maternos e são uns meninos muito adoráveis. Se não tivéssemos ultrapassado os preconceitos e as dificuldades, não teríamos chegado à verdadeira felicidade.
Ah! Já me esquecia de vos dizer que, todos os anos, festejamos o aniversário do nosso abençoado "encontrão" no acolhedor Café Vianna, sob o olhar cúmplice da mascote ...
Autores: Ana Cardoso; Fátima Gonçalves e Joana Ramos